quarta-feira, 13 de junho de 2012

Rica só pra comer bem.

Quem me conhece sabe que eu já proferi inúmeras vezes a frase "Queria ser rica só pra comer o que eu quisesse...Chegar assim num dia qualquer e dizer: vou ali almoçar num restaurante bacana com comida gostosa."

É verdade. Quero ser rica só pra isso.

Pra quem não me conhecia, ou me conhecia pouco, agora já sabe pelo menos minha maior ambição: ser rica só pra comer bem. E aí eu vejo uns quadros do Fantástico, do Bem Estar ou da Ana Maria Braga que tentam nos iludir dizendo que se alimentar bem não custa caro. Mostram uma feira livre, com frutas e verduras fresquinhas e baratas, nas quais os repórteres ainda pechincham e conseguem descontos maiores.
Vocês acham que Ana Maria almoça um quiabo de feira? Uma sardinha com farofa? Uma fruta da estação?
Ainda que almoçasse, dá pra fazer isso TODO SANTO DIA, produção?
Um abraço para Ana Maria, mas sinceramente, não dá não. Com o pastel a R$ 2,00 não tem cristão que se desloque pra feira de São Joaquim ou pra Ceasinha pra comer fruta meio dia!

Comer bem é caro, e por isso mesmo eu desenvolvi um gosto peculiar em restaurantes e bares. Só olho a parte direita do cardápio, onde estão os preços. Sim, apenas a parte direita, pois o que os olhos não veem o coração não sente. E o engraçado é que os cardápios de alguns bares passaram a desenvolver uma modalidade de coação com o nome dos pratos. É impressionante! Todos os meus pedidos (sempre mais baratos) tem o nome de "Pão duro", "Sem graça", "Canguinha" etc... Já viram isso? Pense numa derrota que eu sinto ao pronunciar esses nomes como meus pedidos! É por essas e outras que preciso ser rica.

Aliás, essa mania que tenho de só olhar o cardápio pelo lado direito já me rendeu grandes dissabores. Certa feita eu saí com um grupo de amigos e só tinha R$ 19,00 (DEZENOVE REAIS) na minha conta bancária. Tudo bem, estava entre amigos; caso me faltasse dinheiro alguém completaria a conta ou me emprestaria. Mas tentei não precisar. Por isso fui olhando os preços do cardápio e na minha cabeça eu tava pensando EXATAMENTE ASSIM:

"R$ 39,00, tá caro, nem sei o que é mas deve ser algo com camarão ou salmão ou filé...R$ 35,00, ainda caro...deve ser o mesmo camarão ou salmão só que menor e com menos coisa....R$ 29,00, não tem condições ainda de comer isso que eu nem sei o que é...fora que alguém terá de me emprestar dez reais e eu vou ficar sem nada...R$ 23,00, hum, deve ser alguma coisa de carne-do-sol, mas ainda pode melhorar o preço...R$ 18,00, começando a ficar bom, mas ainda pode melhorar....R$ 15,50, huuum agora sim tá chegando num nível legal..dá pra comer isso e só isso, sem beber nada, mas vamos continuar a procura por algo mais barato..." E assim por diante.
Lá no final do cardápio, dei uma olhadela e tinha lá o preço incrível de R$ 4,00. Pensei  "deve ser um pastel então eu como, digo que não tava com fome (isso e sempre mentira) e ainda dá pra tomar um refrigerante!" Toda feliz já ia fazer o pedido, o que quer que fosse aquilo ali cujo preço eu analisava.

Então olhei o que era. Depressão. Angústia. Do lado esquerdo do cardápio havia a palavra "EMBALAGEM."

Só quem não tem dinheiro sabe o que é olhar no cardápio e ver que só teria condições de comprar cigarro, embalagem e mix de castanhas (que deve ter uns 10g só). Só quem não tem dinheiro sabe o que é ir ao shopping e ficar olhando "Amor aos pedaços", "SOHO", "Il pollo" e acabar comendo um "baratíssimo" sem refrigerante na Subway.

Só quem não tem dinheiro sabe o que é riscar as palavras "salmão", "camarão", "lagosta", "filé" do vocabulário gastronômico e, consequentemente da dieta. Só quem não tem dinheiro sabe o que é pedir um prato barato e vir algo cujo ingrediente principal é ovo. Ovo, aquilo que em minha casa não pode nunca faltar.

Só quem não tem dinheiro sabe o que é ter de fingir que não tá com muita fome pra dividir um lanche com alguém e ficar mais barato. "Amiga, eu não como isso tudo não, vamos dividir?" É MENTIRA! EU COMO! Eu comeria dois pratos iguais dado o tamanho da minha fome, mas não tenho dinheiro.

Mas como "ser pobre é ser ousado" a gente sempre faz uma extravagância de vez em quando. Vai no Spaghetti Lilás. Aquele bando de comida a kilo te rodeando e pobre que é pobre mesmo faz o que? Vai colocar umas folhas de alface, que não pesa! Uma rúcula e um pouquinho de milho verde com uma rodela de palmito. Aí em vez de fazer um prato balanceado que nem os "de rico" - cada coisa em seu lugar, uma proteína, salada e um carboidrato - coloca no prato um pedaço daquela torta compacta de camarão (porque pobre que é pobre adora um camarão!), dois tipos de batata, frita e cozida (porque "incha" no estômago), arroz e feijão tropeiro (que é outra coisa que pobre adora). "Gostaria de um grelhado, senhora?" Não! O preço do quilo do grelhado é maior que o da comida normal!!

Enfim, preciso ser rica só pra comer bem. Meu sonho: Eu, linda, descendo de um carro com aquele canhão de luz em mim, vento nos cabelos e eu me dirigindo a um restaurante de comida gostosa. Eu sento numa mesa, olho o cardápio (DESTA VEZ DO LADO ESQUERDO) e vou vendo aquelas comidas maravilhosas com "ervas finas", "queijo gorgonzola" e essas coisas que deixam as comidas caras. Aí eu peço O QUE EU TIVER COM VONTADE acompanhado da bebida QUE EU QUISER...

Só que acordo.E depois de todas essas desventuras ainda tenho que ouvir nos programas de entrevista aquela pessoa famosa que quer se passar por modesta falando que o prato preferido dela é "arroz e feijão."

Enfim, comi uma comida muito ruim hoje e me senti tão triste que precisava desabafar. É isso.



Aos xiitas: Este é um texto pra ser engraçado. Sei que tem muita gente que é pobre de verdade e passa fome de verdade no mundo. Se você está me achando a pior das pessoas porque não escrevi algo com consciência social, desculpa, mas o blog é meu e eu escrevo o que eu quiser. Quando for hora de coisa séria eu escrevo. Beyjos.

domingo, 10 de junho de 2012

Dia dos namorados. Ou não.

Penou para conseguir um namorado até o dia 12.
Frequentou bares, restaurantes, shows, praia, shopping, estádios e até o botequim da esquina, onde o público alvo não passava de homens casados com mais de 50 anos, calvos e gordos.
Passou da fase da preocupação, da ilusão, da solidão até culminar com aquele desespero mórbido, típico dos carentes. Proferiu heresias - "vou ser sozinha e criar 52 gatos" - e até ameaças.
Se produziu e gastou dinheiro. Chapinha, escova progressiva, definitiva (que é, contraditoriamente, efêmera), inteligente, de chocolate, tailandesa e um sem número de hidratações, relaxamentos, luzes. E haja paciência. E haja revista Caras.
Achou que o problema era o corpo e foi pra academia. Gastou mais dinheiro. Corrida, aulas de suingue baiano, spinning, musculação, natação. E nada.
Resolveu investir no intelecto e passou a frequentar livrarias, galerias de arte, museus. Entrou no cheque especial. Dostoiévski, Marx, Jung e muito café pra acompanhar. E haja vontade de ler gibi e parar de fingir entender aquelas pinturas estranhas que ela tinha certeza que era só tinta jogada numa tela branca.
Cansou.
E, quando enfim se cansou, justo no dia 12, deitou em sua rede na varanda para fumar o cigarro das 23h e ouvir música. Mozart. Não, Tchaikovsky. Botou um disco de Caetano. E parou pra pensar nos casais felizes dos comerciais da TV e do Facebook. Tão bonitos, inteligentes, bem-sucedidos. Sem problemas, aparentemente. Filhos, carreira e uma vida tão organizada quanto uma fila japonesa.
E ela sozinha no apartamento de 85 m².
Decidiu sair. Pegou a chave do carro. A chave caiu mais de uma vez no chão. Xingou mais de uma vez ao ver a chave cair. Chutou a chave. Resgatou-a novamente e partiu.
Revolta, indignação e aquele espelho do elevador que vivia dizendo o quanto ela não era feliz sozinha. Queria quebrar aquele espelho.
Foi quando ele entrou. Ela ensaiou um sorriso. Saiu péssimo. Ele retribuiu com a mesma falta de sinceridade. Cumprimentaram-se sem querer saber um do outro. Ele com flores machucadas na mão. Raiva no olhar. Ela saudosa das flores que nunca tinha recebido. Ignorou aquelas rosas que faziam complô contra ela. Ia beber muito.
Tomou o caminho do botequim da esquina. Foi seguida pelo cara do elevador. Malditas flores. Sentou, pediu uma cerveja e riu. De si. Da situação. Do quanto se deixara levar por um padrão de felicidade que não era o seu. Riu do vermelho na conta do banco. Riu do fato de que não tinha como pagar tanta coisa.
O homem pediu para se sentar do lado dela. Malditas flores.
Ofereceu mais uma cerveja. Ensaiou uma conversa. E contou que acabara de sair da casa da namorada, que agora era ex. Brigaram. Terminaram. Não eram mais um casal feliz do Facebook.
Conversaram mais. E mais. E riram cada um da situação do outro. Com sarcasmo, mas riram.
Ela ia embora. Depois da cerveja, quem sabe um vinho. Convidou-o. Ainda tinha uns filmes da época em que fingia ser cult. "E o vento levou" não era uma boa pedida, mas poderia tentar achar "Pulp fiction" em alguma prateleira.
Subiram.
Ela penou pra conseguir um namorado até o dia 12.
Conseguiu paz e um sorriso no rosto na manhã do dia 13.


sábado, 26 de maio de 2012

Saudade do sertão.

Na caatinga avermelhada os juazeiros alargam manchas verdes. E eu alargo minha saudade desse sertão!
Conheci pouco, é verdade, mas sei o que é pisar no chão de cascalho e no barro vermelho que deixa o pé da gente cor de ferrugem.

Sei o que é acordar com o galo cantando e tomar um café feito no fogão de lenha acompanhado de leite de cabra, cuscuz, carne seca, queijo e tripa frita.
Sei o que é ir até o curral, tanger galinha, andar à cavalo, abrir porteira e chupar umbú direto do pé.
Já vi vaca parindo, passarada voando, siriema correndo.
Já tomei água de cacimba, que o povo bota naquelas moringas e sai sempre geladinha e com um cheiro bom que eu apelidei de "cheiro de água".

Já tive a oportunidade de ver o pôr-do-sol numa caatinga com o céu mais limpo do mundo, delineando aquelas árvores secas, enquanto no céu apenas uma estrela piscava.

Já andei na roça em noite de lua cheia, quando não tinha nem energia elétrica por lá e creiam, a luz artificial não fazia falta. Andei de bicicleta, comprei "coisa" na venda da esquina e fui pra missa numa igrejinha beeeeeeem pequenininha cujo padroeiro é Santo Antônio.
Frequentei a feira, com o povo vendendo fumo de rolo e bolo de carimã. Ferradura, sela, espora, chicote, corda. Vi barraca de tempero e de raízes que prometem a cura de todos os males. Vassoura de palha, ratoeira, pião, pólvora, pente, feijão de corda, farinha e tapioca.  

Lembro-me do povo simples e rico, cheio de uma sabedoria que não se encontra na escola e nem na capital. Respeito pelo outro, pelos mais velhos, e a solidariedade com o vizinho que teve pior sorte na colheira.
As histórias de terror em noite de lua cheia, as piadas que só sertanejo entende, o contar dos fatos ocorridos no dia. 
E as festas, forrós no pé de serra de verdade e a certeza de que por onde eu passar basta ouvir uma música de seu Luiz ou Adelmario ou Dominguinhos e lembrarei com detalhes do meu sertão. Reisado, corrida de argolinha, procissão e esses eventos onde nunca falta uma galinha caipira cozida ou um bode assado.

Vou lembrar da família pobre de um vaqueiro que deu meu nome pra sua neta e das mãos calejadas dele e da mulher, sofridas e rachadas. Mas na mão dela um esmalte descascado denuncia a vaidade.
Um povo que é tido por alienado, esquecido e até burro, mas que sabe exatamente o que acontece. Só prefere não se importar, não ficar com raiva à toa. Um povo, sobretudo, que tem fé. Que acredita em Deus, nos santos, no mundo, no universo. Que acredita em si e no trabalho.

É a este lugar que eu pertenço: ao interior, ao meu pé de serra, àquela caatinga avermelhada onde nunca mais pude ir, mas que continua linda, bela,apesar da seca, da política e da desonestidade dos homens tidos por cultos, inteligentes, admiráveis.

Eu admiro é minha terra, seu povo, a feira, as tradições, a fé e o barulho da bota na estrada cheia de pequenas pedras. Eu admiro é o cheiro de chuva no sertão e a bênção da água que cai do céu quando a gente precisa. Eu admiro o céu limpo e a terra nua. Admiro os juazeiros, as manchas verdes, Luiz Gonzaga e as músicas e histórias de um lugar que faz parte da minha vida. Viva ao sertão!!







sexta-feira, 18 de maio de 2012

Sobre pizzas.


É que esses dias eu estava aqui pensando sobre uma associação que as pessoas costumam fazer entre a pizza e um certo tipo de envolvimento físico humano e resolvi falar sobre isso. A pizza.


A pizza é um objeto peculiar. Quem nunca desejou uma pizza? Quem nunca pôs os olhos naquela pizzaria e desejou profundamente degustar uma pizza? Quem nunca ficou com abstinência por nunca mais ter comigo uma boa pizza, ou mesmo uma pizza "meeira"?

No entanto sabemos que a pizza não é um artefato bom sempre. Às vezes nos deparamos com pizzas de péssima qualidade e, desde que o mercado da pizza se alargou, fica cada vez mais difícil confiar na propaganda ou na rapidez do serviço de delivery.

Muita gente vendendo pizza e a pizza mais fácil de se obter gera a consequência de que ninguém mais presta atenção naquela pizza artesanal que tá ali na garagem italiana de um sobrado alternativo. Tudo agora é pré-fabricado: mesmo as pizzas mais elaboradas seguem um modus operandi que se assemelha à rotina enfadonha de uma fábrica de produção em série, ou de uma peça teatral cujo roteiro já se ensaiou mil vezes.

Mas inovação no mundo da pizza existe e muito! Chega a parecer que ninguém consegue inventar mais nada. Todos os tipos, tamanhos, espessuras, temperaturas e combinações que me lembram aulas de matemática ("Uma pizzaria oferece a possibilidade de 3 sabores em cada pizza: há 24 sabores no cardápio. Quantas combinações podem ser feitas?"). Para todos os gostos e disponibilidades.

E na hora de comer a pizza são tantas as opções: temos pizza pra comer de mão, com garfo e faca, enrolada em cone, transformada em kalzone. E definitivamente não é a mesma coisa nem a mesma pizza. Isto porque modos diferentes de comer a pizza traduzem meios diferentes de se obter o mesmo grau de felicidade e contentamento, ainda que no começo tenhamos de nos acostumar com um novo padrão de proceder.

A respeito da qualidade da pizza tenho a dizer que nem sempre a pizza mais cara é a melhor. Às vezes confiamos no preço e na boa propaganda e nos lançamos volúveis ao sonho da pizza perfeita. Mas o caro sai barato às papilas gustativas e a tão desejada pizza de primeira transforma-se de repente na pizza que pode ser feita, digamos, num restaurante árabe.

E aquela pizza fácil e barata do sobrado alternativo, que você se propõe a experimentar num dia de fome e estado de necessidade, pode se revelar a experiência mais saborosa que um dia se teve. E você nem colocava expectativa. Sequer se permitia olhar com atenção para o sobrado. Pizzas não admitem esse tipo de discriminação. Experimente desprezar uma pizza e vê-la se escondendo de você quando mais necessita.

Mas pizza é bom.

E não sei por que tem gente que não come pizza se não for domingo. "Se for outro dia perde a graça". "Se for todo dia, enjoa". Mas partindo do pressuposto de que nem sempre a pizza é a mesma pizza e que de repente pode ser tanto mais elaborada, quanto de muçarela (simples e sem muita frescura), pode haver pizza todo dia. Depende do quanto se gosta da iguaria!

E que negócio bom é pizza!

Dizem que não há nada que supra uma dor de amor e um filme romântico tão bem como uma bela pizza assistindo a uma série cômica. E se tudo pode terminar em pizza, quem disse que não pode começar também? Amores começam com uma pizza despretenciosa. E ainda que não comece, uma boa companhia e uma pizza podem significar mais que uma companhia cansada que já não aguenta mais o dia de domingo. E aí parte-se para o pior tipo de pizza: a pizza por obrigação, pela companhia, pelo dever moral. Perde-se o gosto pela pizza em si, perde-se o desejo de pizza pelo desejo de começar a segunda-feira, decerto menos sem graça e triste que a pizza pré-fabricada.

Diante disso, deixo alguns conselhos aos que gostam desse alimento:

Não subvalorizem a pizza, tampouco deixem de comê-la por não ser domingo. Desafiem as combinações e o gosto em si. Inventem. Não deixem a pizza de muçarela tomar sua semana toda. Não invente desculpas pra não comer pizza quanto tiver vontade (mulheres, sempre as mulheres), mas também não coma uma pizza por obrigação. Ela não merece. Não faça pouco caso das pizzas baratas no preço - podem ser caras no paladar. Não deixem a pizza esfriar na mesa: você pode comê-la de um só ato ou até deixá-la na geladeira, reservando para o dia posterior a surpresa de uma pizza escondida atrás do prato de brigadeiro. Não sejam egoístas com a pizza, degustá-la junto a uma boa companhia é melhor do que comê-la sozinho em frente ao computador ou televisão.

Pizzas boas de verdade não se afinam com não-me-toques, frescuras e aprofundado exame de admissibilidade. Boas pizzas são inusitadas e surpreendentes, ainda que simples. São aquelas que nos transportam no fechar dos olhos e nos inebriam como se conseguissem chegar ao âmago de nossas almas. Boas pizzas são um convite ao paraíso. Más pizzas são um convite à perseverança.

Aproveitem a pizza. Qualquer pizza.

É bom até quando é ruim.



sábado, 12 de maio de 2012

Fica a dica de amor.

Mãe,

Hoje eu quero te agradecer de uma forma que não tenho feito com a frequência que deveria.

Agradecer por ter me esperado pacientemente e com todo o cuidado nos meus primeiros nove meses de vida. Ao mesmo tempo peço desculpa por não ter a mesma paciência com você e por diversas vezes me irritar por ter de esperá-la em algum local por cinco minutos.

Agradeço também por ter me ensinado tudo. Por ter me alimentado, por ter tido cuidado comigo. Agradeço por ter me mostrado o mundo. Pelas noites em que você velava meu sono enquanto eu no berço dormia tranquila. Obrigada por ter ido ver se tava tudo bem ao menor ruído de desconforto que eu fazia. Obrigada pela dedicação e pela atenção.

Agradeço por não ter se importado com a sujeira que eu fazia com a comida. Devo agradecer por ter tentado entender as palavras estranhas que eu estava aprendendo a pronunciar, por ter me ajudado a ficar de pé pela primeira vez. Desculpe-me por ter mantido segredo quanto ao fato de já saber andar (que você só veio a descobrir depois que eu já tinha aprendido) e por ter ido pro meio do asfalto aquele dia quando eu tinha apenas 1 ano. Não foi minha intenção te assustar.

Mãe, obrigada por ter me ensinado que o fogo queima, que cachorros mordem, que a piscina funda não é lugar de brincar, que eu não devia sair de casa sozinha, que não devia aceitar presentes de estranhos. Obrigada por ter me levado à escola e por ter me ajudado nas tarefas que eu não conseguia fazer sozinha. De fato, pintar e colar demandavam bastante coordenação motora. Obrigada também por ter aprontado minha lancheira com aquele suco de maracujá, frutas e coisas saudáveis. Hoje eu sinto falta disso.

Obrigada por ter me ensinado muito mais. Por ter estado ao meu lado na cama cada vez que eu adoecia. Por ter feito aqueles biscoitinhos de nata e suspiro e por ter me deixado brincar e correr à vontade. Obrigada por ter ido todas as vezes na escola no dia das mães e por ter me ensinado o valor de estudar. Agradeço muito por todos os "nãos" que eu já ouvi de você. Só depois que crescemos é que percebemos a importância deles. Desculpe por já ter dito que você não era uma boa mãe por não me deixar brincar lá fora algumas vezes. Aliás, obrigada por já ter me deixado tomar banho de chuva, foi muito bom. Desculpe por ficar emburrada e por não deixar você arrancar meu dentes de leite com tanta facilidade. Obrigada pela sua persistência.

Agradeço, Mãe, por ter me dado tanta força quando fui embora. Obrigada pela paciência em cada telefonema, quando eu dizia que queria voltar ou que já não aguentava mais. Aguentei por você. Obrigada pelo esforço, sobretudo financeiro, pra me proporcionar tudo o que eu necessitava e muita mais. Desculpe por te cobrar tanta coisa, por exigir tanto de você. Hoje tudo que eu mais desejo, antes de qualquer coisa pra mim, é retribuir. Sei que é uma tarefa árdua, mas vou tentar. Obrigada por me tranquilizar, por dizer que eu vou me dar bem na prova mesmo sem ter estudado (e isso de fato acontecer só por sua causa). Por me dar forças quando eu fraquejo ou quando não consigo algo que queria. Agradeço pela firmeza e certeza que você me passa de que vai ficar tudo bem. Por rezar por mim e ter tanta fé a ponto de conseguir qualquer coisa.

Obrigada por ter me feito uma pessoa íntegra, honesta, feliz, autoconfiante. Desculpe por não ter aprendido tudo o que você algum dia quis me ensinar, mas acredite: a falha não foi sua. Perdoe-me por ser "cabeça dura" e pessimista algumas vezes. Agradeço por ter me ensinado a ser uma boa pessoa, a ajudar quem precisa, a perdoar quem me faz mal. Não sei se aprendi tanto assim, mas juro que tento. Obrigada por estar sempre ao meu lado e por me mostrar meus erros. 

Agradeço por ter me dado um pouco de sua força e firmeza em cada momento que precisei e por ter me emprestado sua mão pra que eu apertasse quando sentisse medo. Ainda precisarei dela por muito, muito, muito tempo. Obrigada por aquele abraço especial e por tantas vezes ter me emprestado o colo pra que eu chorasse e, mesmo sem falar nada, me passar uma sensação indescritível de conforto. Obrigada por ser tão compreensiva com meus problemas, que nem se comparam aos seus - em tamanho e importância. Desculpe não seguir seus conselhos como deveria e muitas vezes ter que aprender na marra. Não que eu não confiasse neles, mas de repente eu precisava passar por isso.

Agradeço pelo seu amor. Puro. Simples. Forte. Inabalável. Amor que é meu também e você sabe. Obrigada por ter consciência de que "os filhos são do mundo" e de que embora eles não fiquem para sempre sob suas asas, jamais serão independentes por completo desse anjo de luz que você é.

Por último, quando eu digo que "Não pedi pra nascer", após você brincar e me "cobrar" por todo o trabalho que dei, eu estou só brincando também. Eu devo ter pedido muito pra ser sua filha e só assim Deus me concedeu tamanha sorte.

Um beijo.
Amo você.

Feliz Dia das Mães!


sábado, 28 de abril de 2012

Um dia.

Ultrapassou o sinal vermelho sem querer. Não viu que o sinal havia fechado e só percebeu quando quase atropelou uma mulher que atravessava a rua.

-Droga. Um dia ainda mato um - dizia pra si mesmo enquanto observava, pelo retrovisor, a vítima esbravejando lá atrás.

Estava atrasado. Audiência às 09:00h de uma sexta-feira. Que juiz marca audiência sexta-feira e ainda mais 09:00h? Devia ser um juiz novo. Menos mal. Antes fosse. A nova safra de juízes ainda não estaria ambientada com os processos e não saberia muito o que fazer. Ainda hesitantes. Ainda mortais.

Deu uma risada de deboche. Lembrou da Faculdade, quando ouvia os professores afirmarem que os promotores acham que são deuses e os juízes tem certeza. Piada clichê. Tão clichê quanto o curso de Direito, que escolhera fazer nem imaginava o motivo. Lembrou de alguns professores. Das festas. Ah, as festas. Sempre cheias ("quórum máximo", como costumavam dizer). Estudante gosta de falar em "jurisdiquês" perto dos outros. Gosta de internalizar as frases em latim que veem nos livros de autores consagrados e caretas.

Olhou o relógio, tentando fazer a conta de quantos minutos ainda faltavam para a audiência. Depois do Direito nunca mais conseguira fazer contas com a mesma habilidade de outrora. Demorou um tempo. Deu risada de si. Absurdo! Fez a conta. 15 minutos. Daria tempo. Torceu pra dar tempo mesmo. O celular tocou. Era o cliente.

-Já estou aqui no estacionamento do Fórum. Pode ficar tranquilo.

Mania que advogado tem de mentir. Aliás, não sabia se isso era da práxis advocatícia ou de suas raízes baianas. Na Bahia todo mundo faz isso. Quando ainda vai sair de casa e diz que já está chegando ao local. Engraçado isso.
Mais um sinal vermelho. Xingou. Talvez não dê tempo. E o cliente já tinha ligado enchendo a paciência. Um menino veio em sua direção, pedindo dinheiro. Aparentava ter uns 6 anos. Olhou para dentro do carro. Não tinha nenhuma moeda. Disse que não tinha. Ficou aguardando ansiosamente pela liberação do semáforo.
-Até que enfim verde!

Acelerou o carro passando de todos os demais que estavam nas faixas do lado. Começou a lembrar do menino. Lembrou do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). Princípio da proteção integral, ato infracional e assim foi lembrando de alguns conceitos, institutos. Há muito tempo havia estudado isso. Abandonou tais estudos quando começou a se dedicar ao Direito Tributário. Odiava. Não aprendera na Faculdade, mas na vida. E detestava. Mas trabalhava num escritório onde o carro-chefe era Tributário e não podia se dar ao luxo de escolher outra coisa, mais legal de se trabalhar. Quando entrou na Faculdade, animado pelos filmes americanos de tribunais, sonhava em fazer justiça, em ser reconhecido pelo seu conhecimento e pela sua força argumentativa a serviço da sociedade. Seria juiz. Ou promotor.

Agora se via atrasado pra uma audiência. O cliente chato. O chefe chato. O Fórum intragável. Aquele cheiro de morosidade. Sabe como é? Cheiro de costume, de acomodação. De coisa velha que fica ali um tempão. Repensou a profissão. Lembrou que através dela conseguia pagar as contas. Lamentou-se. Procurando uma vaga no estacionamento lançou seu último murmúrio:

-Um dia ainda ganho na mega-sena.

E saiu do carro, torcendo para que a audiência não tivesse começado e para que o juiz fosse novato.




quarta-feira, 11 de abril de 2012

Fica a dica de saudade....

Hoje me bateu uma saudade dos meus tempos de criança!

Aqueles tempos em que eu dormia preocupada e acordava ansiosa pra não perder o desenho animado da televisão.
Saudade do tempo em que eu saía de casa com minha lancheira cor-de-rosa da Tupperware, onde minha mãe havia colocado cuidadosamente meu lanche (um salgado gostoso dentro da vasilha e suco - sempre de maracujá- dentro da garrafinha cuja tampa virava o próprio copo).
Saudade do cheiro de giz-de-cera e de praticar bullying com os coleguinhas que ultrapassavam o limite do desenho na hora de pintar.
Do tempo em que eu jogava gude, pulava amarelinha e brincava do clássico jogo "Polícia e Ladrão" (e não tinha que me preocupar com o contraditório e ampla defesa do ladrão, muito menos com garantias processuais).
Queria de novo aquele cheiro de livro novo e o prazer de descolar suas páginas um pouco grudadas. Saudade das musiquinhas que aprendi na escola, de apostar tazo, de decorar tabuada e acertar, me achando, quanto era 9x7.
Saudade da época em que eu fazia catecismo e só ia lá pra roubar goiaba de uma goiabeira que tinha perto da igreja.
Saudade de voltar da escola pra casa correndo, como se tivesse apostando corrida com o vento e quando chegava no portão já sentia aquele cheiro bom de comida da mãe da gente.
Dos tempos em que eu conseguia fazer todos os deveres de casa em 30 minutos e estava com o restante do dia livre pra brincar.
De quando eu jantava e afastava todas as verduras e temperos no prato porque não gostava e de como minha mãe reclamava com isso.
Saudade das noites em que meus pais assistiam ao Jornal Nacional e eu ficava atenta ouvindo as notícias sobre FMI, Bovespa, corrupção, Brasília, ACM, Governo Federal.
E no meio de tanta notícia, a única preocupação que povoava minha mente era: "Em que lugar eu vou me esconder hoje quanto tiver brincando de esconde-esconde?"

Parece irônico como a gente quer tanto crescer e nem percebe que tá crescendo. Quando vê, as responsabilidades batem à porta, as preocupações são outras e a gente deixa passar os cheiros, as visões, as formas das coisas que nos fizeram tão felizes.

Hoje, olhando a pilha de coisas a fazer, o que eu mais desejava era poder voltar a ser criança só por um dia e fazer tudo igual ao que era antes...ou melhor, aproveitando mais, e deixando lembranças bem mais vívidas que estas.