Vivia na sarjeta, perto da velha loja de eletrodomésticos da esquina.
Não tinha dono - o que por ali não era novidade, afinal, os demais animais de rua também não tinham.
Vivia do que jogavam no chão, perto do lixo, ou do que algumas crianças mal educadas jogavam das janelas dos carros. Algumas vezes arremessavam pedras e outros objetos que machucam.
Tinha apenas um amigo: uma pomba. Esta, apesar de ter asas, insistia em ficar por ali, naquela rua tão movimentada quanto suja. Talvez pra não perder a amizade, talvez porque não sabia pra onde voar. O fato é que todos os dias aparecia pra dividirem uns restos de comida e os infortúnios da vida.
Não tinha consciência de seu lugar no mundo. Talvez tenha chegado ali por um acaso qualquer, pois acreditava que não podia haver "destino" tão ruim. Quem sabe aquilo seria um castigo. O que teria feito de errado pra merecer uma vida tão pobre?
Sabia que alguns animais tinham lares, irmãos, amigos da mesma raça, algum lugar macio e quentinho pra passar a noite. Sabia que no mundo existiam esses lugares em que não precisava ficar com medo de dormir e ser apedrejada ou levada por aquele carro grande pra onde levavam os demais. Várias vezes acordava assustada com medo de ser levada, de ser morta, então preferia aquela vida a se entregar por completo.
Por isso evitava o contato com outros. Evitava olhar nos olhos ou emanar qualquer som. Simplesmente vivia, apesar de saber que não ia durar muito daquele jeito.
Obviamente não tinha nome. Certa vez, quando conseguiu ficar algum tempo na porta da loja de departamentos, antes que alguém a enxotasse, ouviu um nome que lhe agradou: Lassie. Queria ter esse nome pra ela. Queria ouvir alguém chamá-la assim e levá-la pra passear. Aliás, não sabia muito o que era passear, mas parecia bom naquele filme. Muita coisa parecia boa naquela caixa preta que chamavam de "televisão". Nada parecido com a situação dela.
As pessoas a evitavam: faziam questão de espantá-la dos lugares, como se fosse uma cobra venenosa. Olhavam-na com um misto de desprezo e medo, apesar de nada fazer pra merecer esse tratamento. Às vezes, muito raramente, alguém tinha compaixão e a olhava com pena. Jogavam migalhas. Mas logo em seguida iam pra suas casas.
Certo dia viu na televisão uma imagem de outros iguais a ela. Pareceu bem mais triste visto daquele ângulo. Desistiu de assistir aquilo. Se soubesse o nome do programa jamais apareceria em frente à loja de eletrodomésticos para ver. Talvez um dia descobrisse o horário que passava e então evitaria aparecer por lá.
E todos os dias pareciam iguais.
Até que um dia, sem mais nem menos, foi levada por um carro grande com pessoas dentro. Estava arisca, nervosa, e se chegassem muito perto se defenderia com uma mordida bem forte.
Mas não foi preciso.
Levaram-na pra um lugar grande, onde lhe deram comida, água e banho - o mais perto que já chegara de um banho foi quando refrescava-se na fonte da praça, nos dias de calor.
E foi ficando.
Até que certa feita apareceram umas pessoas interessadas em levá-la pra morar com elas. Não sabia quem eram, mas aquele casal parecia muito bonito, igual àqueles das capas das revistas velhas que as pessoas jogavam na rua. Disseram-lhe que teria um lar, uma família. E quando perguntaram seu nome, simplesmente respondeu, lembrando de sua época mais triste:
- Lassie.
Hoje Lassie se chama "Melissa", o nome mais parecido que conseguiram arrumar. Tinha um lar, com um irmão e pais amorosos. Talvez comece a frequentar a escola esse ano. Já não quer se recordar da época em que os demais animais humanos a machucavam ou não a viam. Simplesmente tinha um nome e uma aparência. Deixou de fazer parte da rua pra se tornar parte de uma família.
A única coisa que lamentava era que outras crianças ainda estavam nas ruas, nas calçadas, nos becos, nos viadutos, nas esquinas. Tinha sorte de estar viva e de ter saído de lá. Talvez um dia comprasse um eletrodoméstico naquela velha loja e então não seria enxotada. Procuraria sua pomba.
Mudaria seu "destino".
Agora tinha um.
domingo, 12 de agosto de 2012
domingo, 5 de agosto de 2012
Fazendo D(d)ireito.
Quando me inscrevi para o vestibular da UFBA, em 2007, não tinha exata noção do que fazer. Aliás, durante toda a minha vida pensei em fazer Medicina (ideia concebida a partir do quão importante parecia meu tio vestido com um jaleco e do quão feliz parecia seguindo sua profissão). Fiz matéria isolada. Estudei Biologia, Física e Química a fundo. Desesperei-me com "Eletrodinâmica". E no dia que me inscrevi, marquei a opção "Direito".
Sem pretensão de fazer justiça, de mudar o mundo, de aplicar correta e honestamente a lei nesse país corrupto e desajustado. Não, não tinha assistido a nenhum filme americano de tribunal na noite anterior. Simplesmente desisti da Medicina e entrei no Direito. Falta de opção, talvez. Exemplos na família também tinha e a ideia de vestir trajes sociais e parecer elegante também me balançou, confesso.
Pois é. Aos que hoje me consideram ao menos interessada e gostando do que faço, está aí a verdade. Fazer Direito porque tem alguém na família e porque acha lindo roupa social. Não desanimem, não parem de confiar na minha "sensibilidade jurídica". Tampouco me julguem. Conheço gente que fez Direito porque acha que dá dinheiro fácil e é bem menos censurada.
Ao entrar na Faculdade, então, estudei sobre Filosofia do Direito. O que é o Direito? A quem serve? É uma ciência? É um fato social? É um objeto cultural (vide Henrique Aftalión)? Como interpretá-lo? Como aplicá-lo? O que posso fazer?
E descobri que entre a infinidade de teorias e a prática a distância é maior que a do Fórum Ruy Barbosa pra minha casa. Mas é só adentrar aquele espaço de poucos amigos que se sabe o que é Direito, sob os mais variados pontos de vista.
Para a funcionária da empresa terceirizada que limpa os gabinetes e secretarias, é mofo.
Para o desavisado que entra no Fórum furtivamente, é sisudez.
Para outros é papel. Muito papel. Resmas, calhamaços.
Para alguns juízes, promotores e advogados é ego.
Para alguns servidores é salário.
Para as partes é esperança.
Quanto a mim, não tenho muita ideia do que ele é não. Talvez um misto de tudo aí em cima. Embora eu não saiba o que esperar dele, de fato, sei o que queria que ele me oferecesse em troca de petições tecnicamente perfeitas e bem acabadas e honestidade na conduta.
Eu quero que ele seja prazeroso, como uma tarde de pôr-do-sol na Ribeira tomando sorvete de coco verde. Que simbolize um mínimo de justiça açucarada. Que trate os outros com ternura. Que seja menos engravatado, menos chato, menos ranzinza. Quero que o Direito seja meu amigo e me pague uns cafezinhos (e nisto se resume meu salário). Quero um Direito que me inspire. Que me mostre um pouco do que eu vim aqui fazer. Que me dê vontade, desejo. Nem por isso um Direito fajuto, mal feito, injusto, omisso, covarde. Um Direito menos opressor, que prefira as janelas abertas em vez do ar condicionado cheio de ácaros. Que prefira o amarelo aos tons de cinza e os sorrisos aos cumprimentos falsos vossa excelenciados.
O que eu quero dele, eu já sei.
Resta saber o que ele quer de mim.
(daqui a um semestre eu começo a descobrir)
domingo, 22 de julho de 2012
Felicidade e propaganda.
Me considero uma pessoa muito feliz. Muito mesmo. E se você me perguntar se sou feliz para sempre, mesmo quando um ônibus joga em mim aquela água da chuva que acumulou no asfalto eu vou dizer que sim. Continuo sendo feliz. Pra mim estar feliz é quase como estar viva. Simples.
E você? Quer ser feliz? Quer mesmo? Então pára de assistir televisão. Desconsidere as propagandas e as novelas. Sério.
As propagandas estão a todo momento mandando você ser feliz. Mas não é dizendo pra você ser feliz com o que tem ou com o que se é. É ser feliz com o carro novo da FIAT que tem o melhor motor da categoria e foi eleito duas vezes consecutivas o carro do ano. É ser feliz com a magreza própria dos seres esqueléticos que circulam por algumas passarelas mundo afora. Ser feliz é ter o guarda-roupa cinco portas por apenas R$ 599,00 da promoção da Insinuante que é só até amanhã (e tem todo dia).
Uma vez eu vi uma frase que dizia mais ou menos que a gente vive tanto QUERENDO a felicidade que muita vezes já temos. A gente nem sabe o que é isso direito! Se felicidade é bem estar pleno, aquele cochilo na rede depois do almoço de domingo é felicidade. Não estar doente é felicidade.
Mas gente não sabe o que é e ainda complica! E as novelas, as propagandas os filmes, os contos de fadas, tentam vender uma ideia de que felicidade é algo que se alcança quando todos os desejos são realizados: o marido perfeito, filhos bonitos e saudáveis, a casa dos sonhos, o carro da FIAT que foi eleito duas vezes o carro do ano, uma sogra bacana, comidas feitas por um Chef todo dia, viagem de fim de ano todo ano para o lugar que quiser.
E dinheiro? Este é imprescindível em qualquer felicidadezinha mixuruca.
Esses dias mesmo eu estava vendo a novela " Cheias de Charme" e tem uma personagem chamada Cida, que cresceu sendo empregada dea casa de um advogado milionário chamado Sarmento, onde a mãe dela também tinha sido. Ela grava um vídeo com as amigas, faz sucesso como "Empreguete" e consegue fama e dinheiro. Mas para a Globo não basta isso. Ela vai ter que ser filha de Sarmento para ser plenamente feliz.
O mesmo caso da outra novela, que tinha Pereirão, uma mulher que trabalhava como "faz-tudo" e trocava até pneu. Apesar de ser feliz sendo pobre, a protagonista tinha de ser feliz sendo milionária, tendo uma casa bacana, carrão, sendo empresária e tudo o que tem direito.
E o que mais me intriga nas duas é que tanto Cida quanto Pereirão tinham homens apaixonados por elas quando pobres. No entanto, elas só poderão viver o conto de fadas pós-moderno e feliz se estiverem com dois milionários: uma com o filho de um milionário, a outra com um renomado chef de cozinha.
E não me perguntem porque é que elas simplesmente não ficaram com os homens pobres que as amavam desde sempre. Para os autores de novela não pode haver final feliz ao lado do dono de um bar. No máximo, se o público gostasse muito dele, seria inventada uma herança milionária no último capítulo e aí sim: felicidade!
Só dizendo uma coisa a vocês: não vão por aí não. Ou vocês vão viver para sempre se lamentando por não ter o carro da propaganda da FIAT, o sorriso perfeito e branco da propaganda da COLGATE, o cabelo da propaganda LORÉAL e a pele da propaganda da AVON.
Eu já abandonei as propagandas. Vou continuar com meu sorriso meio torto, meu apartamento alugado, o ônibus de todo dia e a pele cheia de "pé de galinha" (que minha mãe, sábia, já disse que é porque a gente ri muito e fica assim).
P.S. Um dia terei um carro, mas ele não será minha felicidade. Ela é melhor que o melhor motor da categoria.
quinta-feira, 19 de julho de 2012
Quanto mais "sem graça" mais graça.
Sou fã de tropeções.
Uma exímia colecionadora de gargalhadas ao ver aquela mulher de salto alto tropeçar na rua. E ficar sem graça ao se recompor.
Adoro erros imprevisíveis. A cara do juiz ao gaguejar em sua primeira audiência. A cara do advogado empertigado e arrumadinho ao
descobrir que tem alface no dente. A cara do professor robótico ao ser
visto tirando meleca.
E por que isso?
Existe algo mais "vivo" que uma feição sem graça? Neste mundo de orgasmos homéricos e gargalhadas torpes tão verdadeiros quanto uma nota de 3 reais, talvez a expressão "sem graça" seja a que ninguém consegue fingir. Fingir a vermelhidão no rosto, o suor frio nas mãos, aquela olhada disfarçada pro lado pra ver se alguém o pegou no flagra. Ninguém consegue.
Até mesmo aqueles que se gabam de sua postura galhofeira e desavergonhada ficam sem graça.
E por ficar sem graça disfarçam.
E no disfarçar é que se mostram.
E nos romances e nas apaixonações dessa vida, o que me agrada não é a segurança irrestrita ou a confiança absoluta, sérias e imóveis. Não. Nada disso me deixa mais satisfeita do que perceber o olhar desviado, as mãos trêmulas, a negativa de sentimento acompanhada do medo de ser pego e de ter exposta uma vulnerabilidade indesejável.
Por isso estou sempre atenta. Ao mínimo sinal de um sorriso amarelo e de uma rosto vermelho, lá estou à espreita. E não evitarei o olhar de "eu sei o que você estava fazendo", pois quanto mais esse olhar mais sem graça e quanto mais sem graça mais graça.
É. Também sou fã de trocadilhos.
Vixe, fiquei sem graça agora.
segunda-feira, 9 de julho de 2012
Dedicado aos homens. Feito para mulheres.
Este meu texto é destinado a vocês homens, com os quais convivo ou não, e se baseia em uma conclusão que me chegou à mente quando eu tinha uns 16 anos. Aliás, não é só uma conclusão não. É uma indignação.
Com certeza todos vocês já disseram que não se consegue entender uma mulher. Que mulher é contraditória (uma hora quer, outra não quer), volúvel, instável, fugaz e todos os adjetivos que denotam a indeterminação da mulher na tomada de decisões.
E eu vou dizer aqui com todas as letras o porquê disso: HOMENS.
Desde o começo do mundo os homens pensam que dominam tudo. Só que não. O fato de trabalharem fora desde as cavernas e caçar bichos ferozes, manejando armas de pedra lascada fez vocês, homens, acharem que o trabalho de vocês era mais importante que o da mulher, O Sexo Frágil.
Beleza.
Passou a antiguidade e vocês começaram a exigir que a mulher ficasse em casa cuidando dos filhos, da casa, do serviço doméstico e de vocês. Sem pagar por isso. E aqui eu vou dizer uma coisa que vocês podem nem suspeitar, mas basta encarar uma droga de uma pia cheia de prato pra saber: o serviço dentro de casa não pára! Só se você morar só e decidir usar pratos, copos e talheres descartáveis.
Enfim. Vocês decidiram que era assim e as mulheres de Atenas aceitaram. Aí lascou-se.
Só que de uns tempos pra cá, por causa de VOCÊS surgiu o movimento feminista que queimou sutiã e modificou a história feminina. Antes as mulheres tinham que cuidar da casa, dos filhos, do marido, do serviço doméstico, coordenar as atividades dos empregados da residência etc.
Hoje, as mulheres cuidam da casa, dos filhos, do marido, do serviço doméstico, coordenam as atividades dos empregados da residência e TRABALHAM FORA. E ainda por cima, não bastasse tudo isso, vocês querem que a mulher QUE TRABALHA COMO UMA CONDENADA, esteja sempre sexy e fogosa o suficiente para uma noitada de sexo selvagem.
Mas você pode me dizer: hoje em dia não é mais assim pois há muitos homens que ficam dentro de casa enquanto as mulheres trabalham fora. É exceção! Isso aqui não é o Globo Repórter, senão eu estaria falando de como vivem os albatrozes do atol de Fernando de Noronha (não sei se existe isso). Estou falando da regra, do que comumente acontece.
Aí beleza. Veio o trabalho fora de casa e aí foi massa porque ficamos independentes e destemidas. Os homens começaram a dizer que valorizam mulheres inteligentes, independentes, autoconfiantes.
Mentira pura! Sabe por quê? Porque vocês se assustam com mulher assim. Falam que adoram uma mulher aventureira e impulsiva, mas se alguma te chamar pra sair você não vai e se te oferecer uma cerveja no boteco da esquina vai receber um olhar de "Tá fácil demais".
E aí vem minha descoberta: às vezes nem as mulheres se entendem no campo das conquistas porque vocês nos confundem a respeito do que querem da gente!
É fácil dizer que a mulher tem que ser determinada, autoconfiante, deve ter autoestima, ser independente (inclusive financeiramente), inteligente, impulsiva, sexy, mas sem ser forçada. Tem que saber rir, contar piada, tomar cerveja e ser espontânea.
Aí a mulher dá em cima de você e é tida por "fácil".
Usa umas roupas pra se sentir sexy pra você e é tida por "piriguete".
É inteligente e autoconfiante e é tida por você como "metida".
Conta piada, fala palavrão, e é tida por você como "baixo astral".
Produção? Quem é confuso mesmo?
P.S. Só um conselho: Mulheres, sejam vocês mesmas, independente do que a maioria dos homens - seres cuja inteligência lhes legou o trabalho braçal ao longo da história - pensa! Todos eles sabem que no fundo no fundo a gente é que resolve tudo e decide tudo mesmo. Alguns ainda negam e fingem que acreditam que eles mandam e são os maiores fodões da história. Mas sabem que não são. Não se deixem enganar também. E o mais importante: deixem de agir como mulherzinhas, chamando umas às outras disso e daquilo e julgando a conduta de umas e de outras. Isso é coisa de homem imbecil.
domingo, 1 de julho de 2012
Sem "Princesa" e sem "Madrasta".
De todos os absurdos dos Contos de Fadas, tem uma coisa me deixa possessa!
Em TODOS eles, todos, sempre existem pessoas muito boas ou muito malvadas. Não existe meio termo. Ou você é a princesa ou você é a bruxa. Ou você é enjoada e canta com passarinhos que nem uma retardada no meio da floresta ou você simplesmente tem poderes mágicos das trevas e ministra veneno na comida das pessoas.
Ninguém nunca ousou fazer um conto de fadas no qual a princesa desse um belo par de chifres ao príncipe, ou antipatizasse com os animais do castelo, ou não tivesse consciência do desenvolvimento sustentável do reino.
Ao mesmo tempo, pensemos nas madrastas/bruxas (um absurdo igualar os termos). Ninguém nunca fez uma história na qual ela doasse dinheiro aos pobres, ou frequentasse a Igreja todo dia, ou mesmo concedesse folga a suas empregadas sem perguntar o motivo. Ninguém.
E pensando nisso resolvi contar como seria um Conto de Fadas feito por mim.
Na minha história de conto de fadas ninguém seria naturalmente ruim ou naturalmente bom. Haveria um reino, pra mantar um certo ar de "vassalagem", cavalos, carroças e castelos (sempre gostei da ambientação dos contos de fada).
A princesa seria diferente. Primeiro porque não seria uma princesa propriamente dita...Na verdade ela seria uma plebeia, cidadã comum do reino, no auge dos seus 19 anos, e não era muito bela, nem muito delicada. Era normal e apreciava paquerar os rapazes da vila. Teve uns envolvimentos furtivos com o filho do padeiro ano passado e mantinha às escondidas um caso com o filho de um feirante que trazia especiarias. Seu pai nem imaginava esse tipo de conduta. Sua mãe - sim, na minha história a protagonista tem mãe - sabia, pois tinha ouvido das amigas fofoqueiras numa roda de costura. Não aprovava, tampouco recriminava a filha. Ela estava na idade pra essas coisas. Só se preocupava com o futuro dela: 19 anos e nada de casar! Nem um pretendente sequer. Um dia ainda daria um jeito nisso.
Ao lado da casa da família da Plebeia, vivia um Plebeu. Não era alto, forte nem tinha aquele cabelo liso e brilhoso que os príncipes dos contos de fadas normais tem e deixam esvoaçar no vento - numa atitude não heterossexual. Não. Ele era meio imaturo às vezes - já que tinha somente 25 anos - e não tinha estudado muita coisa na vida. Seus pais se preocupavam com seu futuro, sobretudo porque descobriram que ele nutria uma paixão pela Plebeia, sua vizinha, a qual era conhecida por todos como "piriguete" - nessa época já existia o termo. Plebeu era um bom rapaz, só não era muito estudioso. Mas gostava de Plebeia, embora namorasse outra plebeia, filha de uma costureira.
O fato é que as duas famílias se preocupavam mutuamente com o futuro dos filhos e acharam que seria bom que eles se casassem. Assim, sem nem ficar antes. Pois é. Antigamente era tudo rápido. Casariam em outubro, para quando chegasse o Carnaval eles já estarem com um relacionamento consolidado. A data foi acordada por dois motivos: a família de Plebeia queria evitar que eles terminassem por causa do carnaval, já que a filha não era fácil e com certeza daria um jeito de sumir; os pais de Plebeu, por sua vez, ficaram com medo de Plebeia arranjar uma gravidez indesejada no carnaval e certamente Plebeu jamais saberia se o filho era seu ou não.
Contrataram uma curandeira, que não era madrasta de ninguém mas tinha o domínio da arte das poções e xaropes. Essa curandeira prometia aliviar todo o tipo de doença, trazer a pessoa amada em 3 dias, curar frieza e frigidez sexual, entre outros. Pediram que ela unisse o casal, e assim foi feito. Ela fez os trabalhos, colocou na encruzilhada, mas em vez de colocar o nome dos dois, colocou seu nome e o do rapaz.
O Plebeu então se apaixonou pela curandeira, que era muito bonita e que gostou dele também. Os pais então deixaram que o filho se casasse com ela, pois sempre teriam a proteção dos búzios nos negócios. Quanto a Plebeia, depois de ter engravidado no carnaval e deixar o filho na casa dos avós, resolveu montar uma banda de trovadores medievais que corriam o mundo atrás de riqueza e amor fácil.
E todos viveram tentando ser felizes para sempre.
Fim.
sexta-feira, 29 de junho de 2012
As mulheres e suas artimanhas - em 3 atos.
1º ato.
-Adão, come aqui essa fruta proibida.
-Mas não é proibida?
-É.
-E foi Deus que proibiu?
-Foi.
-Vou comer não.
-Coma aí.
-Vou nada, tá louca?
-Só um pedacinho!
-Não!
-Por favor, Adão. Só temos nós dois aqui. Ninguém vai ver.
- Imagina, vai nada...Tá doida, mulher? Tu esqueceu que o Chefe é onipresente?
-Só um pouquinho, deixa de ser chato.
-Não, não e não. E joga esse negócio fora...
- Sempre assim: só estamos nós dois aqui, eu sou o único ser humano com você e em vez de fazer o que eu peço você fica implicando..sempre assim...Depois vem de noite: "Evinha...ô evinha....vem cá..." Deixe estar.
- Mas é proibido, Evinha! Fica assim não..Se Deus descobre, acaba expulsando a gente do Paraíso.
- Quer saber? Deixa pra lá! Precisa mais não...Esquece!
- Poxa, Evinha...Você sabe que eu faria qualquer coisa pra ver você feliz.
- Sério?
E assim Adão e Eva foram expulsos do Paraíso.
2º ato.
- João, vamos fugir para aquela Colônia ao sul? Como é mesmo nome? Bras...
- Brasil.
-É! Soube hoje pelas criadas que Napoleão está comandando um exército para nos matar.
-Tá mesmo.
- Então vamos pra lá.
- Tá maluca? Índio, mosquito, um calor dos infernos...Vou não. Vou ver outra colônia dessas aí.
- João, o que custa? Colocamos a Corte e nos mudamos para lá. Soube que não é tão ruim.
- Imagina se é ruim...um paraíso tropical cheio de doença, índio, sujeira, tudo bagunçado.
- Ai, João, por que você fala assim com essa ironia toda? Só porque eu dei uma opinião? Não se pode mais nem dar opinião nesta porcaria deste palácio?
- Carlota, minha querida, deixa eu te explicar uma coisa: se nós formos mesmo para o Brasil, vamos ter que tentar organizar tudo lá, criar um bocado de coisa, arrumar outras. Muito trabalho.
- Então você prefere ficar aqui e morrer? Tudo isso por causa de preguiça? Bem que minha mãe falou que homem só não é mais preguiçoso porque nasceu com duas patas e não tem como se apoiar em mais duas!
- E por este princípio, mulher só não fala mais besteira porque nasceu com uma boca só!
- Tá vendo como você é? Não posso falar nada que você vem com essas grosserias. Deixe estar, João. Mais tarde eu vou fugir do quarto como Diabo fugindo da cruz.
- Vamos pra qualquer outro lugar mas não pro Brasil, certo?
- Quer saber? Deixa pra lá! Precisa mais não...Esquece!
- Carlotinha, fica assim não...Você sabe que eu faço tudo pra te ver feliz, não sabe?
- Sério?
E assim a Família Real desembarcou no Brasil.
3º ato.
- Amor, leva esse sofá lá pra baixo?
- É um SOFÁ. Deve ter uns mil quilos isso aí...
- Mas ele não pode ficar aqui.
- Por quê? É bem em frente à TV!
- Justamente, vou colocar umas poltronas aqui, modificar o espaço. Deixar mais amplo, sabe?
- Hum...e a TV?
- Vai pro quarto de hóspedes.
- Oi?
- Quarto de hóspedes.
-Como é que eu vou assistir ao jogo no domingo?
-Tem mais duas TVs na casa, meu bem.
- Não vai ter nenhuma na sala.
- Assiste no quarto.
- Sem poder comer nada na cama, nem tomar chopp em cima do lençol de algodão egípcio que sua mãe trouxe dos Estados Unidos?
- É. Leva logo esse sofá.
- Pesa uns mil quilos isso aí.
- Eu preciso ver como vai ficar.
- Não vai dar pra levar! Como eu vou descer com esse sofá sozinho pela escada? Parece que bebeu!
- Então eu dou um jeito e levo! Estou acostumada a fazer tudo sozinha mesmo! Mas olha só, quando for de noite eu também vou fazer questão de ficar SOZINHA, tá?
- Faz assim não, meu amor. Não precisa isso tudo. É porque esse sofá é muito pesado e se eu levar sozinho corro o risco de cair e quebrar 3 costelas.
-Quer saber? Deixa pra lá! Precisa mais não...Esquece!
- Ô, Aninha, você sabe que eu faria qualquer coisa pra te ver feliz, né?
-Sério?
E assim Júlio quebrou três costelas.
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