quinta-feira, 15 de maio de 2014

Ser tão.

Sou o próprio Nordeste
No sangue e na pele
No brilho do olhar

Fui feita pra dança
E minha Asa Branca
Me leva a voar.

Sou água de chuva
Que a vida saúda
No solo rachado.

Mulato aguerrido
Que manda os bramidos
Pra tanger o gado

Sou neta de vaqueiro
Sombra de juazeiro
Sou o cheiro da arruda

Eu sou benzedeira
Mas já fui parteira
Na hora da ajuda

Sou sol escaldante
Sou seu comandante
Lampião do cangaço

Sou fraco e franzino
Mas o meu destino
Eu mesmo é que traço

Sou toda lua cheia
Que o Sertão encandeia
Que ilumina a estrada

Sou seu candeeiro
Forró no terreiro
Sou Luiz Gonzaga.

E se um dia disserem
Que ser do Nordeste
É má condição

Respondo sem risco:
Só é tudo isso
Quem sabe ser tão.




quinta-feira, 8 de maio de 2014

Para aprender a ser filho.

A tarefa de escrever para as mães¹, no Dia das Mães, é das mais difíceis. Como diria o clichê musical desse dia, nós temos muito para lhes falar, mas com palavras não sabemos dizer! Mesmo a palavra "amor", a mais grandiosa de todo o dicionário, parece pequenininha perto do abraço da mãe da gente, né? E como colocar junto a esse abraço toda a gratidão e a admiração que sentimos? E como expressar, em Newtons (unidade de medida que lembro do Ensino Médio), a força que se transmite das mãos delas para as nossas nos momentos de desespero na cadeira do dentista? Ou depois de um pesadelo? Impossível.

Por isso acreditei que dessa vez era melhor escrever para os filhos. Sim, me refiro a vocês, que em algum momento da infância já quiseram fugir de casa. Que já xingaram suas mães, mas ao mesmo tempo desemborcaram a sandália para ela não morrer (adoro superstição). Vocês, que já desejaram, ainda que por 30 segundos, não ter mãe (quando ter uma mãe significava ter regras a cumprir). Alguns, em sua vileza, já quiseram a morte dos pais - incluída aqui a mãe. Vocês, filhos, que desenharam coisas em franca assunção do estilo cubista surrealista dadaísta moderno e foram elogiados como verdadeiros artistas. Vocês, que tantas vezes deixaram, contrariados, as melhores brincadeiras por causa do sereno.

A vocês, filhos, vou contar apenas duas histórias que, gostaria muito, fossem lidas com atenção.

A primeira história tem relação com um dom que somente as mães possuem: o dom de renunciarem. Já pararam para perceber que desde a concepção de um bebê até o último dia de suas vidas as mães abandonam o que querem em prol dos filhos? Começa com a gestação: não pode beber, não pode fumar, não pode comer isso e aquilo, em alguns casos não podem se esforçar em determinadas atividades físicas, e por aí vai.

Depois que o bebê nasce aí é que vem privações de todo o gênero: primeiro, as de ordem financeira, que apesar de serem menos piores não deixam de ser sentidas (Ir ao salão ou comprar fralda? Trocar o carro ou equipar o quarto do bebê?); depois, as relacionadas à liberdade e à desoladora certeza de que não se pode sair por um minuto, viajar, passar um fim de semana em um lugar legal, ir ao shopping sem hora pra voltar...

Se fosse só isso tudo bem! Mas quando crescemos são outras renúncias: as mães abdicam do sono, das noites de amor eventualmente atrapalhadas por um pesadelo, e da própria paz.

Depois, se você um dia conseguir perceber, chega uma hora em que as mães renunciam até de si mesmas.

Explico. E aqui começo a primeira história.

Conheci uma mulher que possui duas filhas. Meninas bonitas e inteligentes. Acredito que a mais velha deve contar com 8 anos agora, e a mais nova com 5. Mas isso não vem ao caso. O fato é que a mãe descobriu um câncer no seio.

Depois de muito susto e correria, enfim agendou-se uma cirurgia para retirada do tumor.Durante dias, a mãe permaneceu, perante as filhas, do mesmo modo como sempre se comportou: ria, brincava, tinha seus momentos de conversa com as meninas, fazia almoço. Tudo igual.

As meninas, até então, não sabiam de nada.

Um dia vi as filhas brincando na varanda de casa com vários lápis de todas as cores. Era um festival de alegria! Desenhos e papeis esvoaçavam naquela cena, linda de se retratar.
Mas ao lado das meninas, uma mãe possuía olhos cor de cinza e um sorriso amarelo. Eu sabia o porquê: a certeza de se amputar não um seio, mas a sua própria feminilidade, o seu próprio eu.

O contraste existente naquele momento era belo e aterrador.

Mas uma mãe de verdade renuncia ao direito de sentir dor na frente das filhas. A mãe renuncia ao direito  mais íntimo que possui, que é o direito de sentir tristeza. As mães, por incrível que pareça, também não possuem o direito de morrer. Morrem a contragosto e se afligem mais por deixar os filhos do que por deixar o mundo.

Isso se vê também na segunda historinha.

A mãe da minha melhor amiga², certa feita, foi acometida de um tumor na cabeça. Os riscos da cirurgia eram altos. Mas minha amiga só soube a verdade depois que a operação já havia sido um sucesso. Essa mãe também teve de renunciar ao direito de sentir medo. Imagino, hoje, o quanto ela deve ter sofrido sozinha, em sua angústia, a cada consulta, a cada exame. E tudo com um sorriso no rosto e a aparente tranquilidade de sempre.

Deve ser verdade o que minha mãe sempre diz: "Depois que você é mãe nunca mais consegue dormir direito.". Faço um adendo para dizer que, muito provavelmente, depois que se é mãe você nunca mais consegue ser você plenamente.

E isso é de uma lindeza impossível de traduzir!

Por fim, apesar de saber que os filhos, que nem aguentam esperar o jantar, talvez não tenham nem chegado ao final do texto, quero contar só um conto bem curtinho sobre o que eu espero nesse Dia das Mães.

Meu tio Cosme, esposo de tia Linda, teve uma mãe nada convencional, com quem morou até bem pouco tempo. É que a mãe dele, nossa querida Morena, apresentou um quadro de Alzheimer, que em determinada altura da vida era apenas controlado, mas que jamais poderia regredir. 
Em determinados momentos ela mal conseguia distinguir o filho. Algumas vezes o chamava como se ele fosse o marido, outras vezes como se fosse outro filho. Em alguns momentos tinha raiva de todos, em outros - na maioria deles - era divertidíssima.
O fato é que Cosme sempre cuidou dela com a mesma serenidade e paciência por todos os dias em que conviveram. Mesmo nos momentos críticos, era ele que cuidava dela como uma mãe cuida do filho. E quando foi o aniversário de Morena, no dia 12 de janeiro (como ela costumava dizer a todos) e comemoraram junto com ela em um tipo de reunião da família, diante da menor insinuação de que ela nem sabia do que se tratava por conta da doença, era como se Cosme, com sua atitude, falasse: "Mas eu sei que é aniversário dela".
E foi assim por todos os dias, até que Deus a levasse para junto de si³.

Por isso hoje, filhos, junto com o presente comprado para "uma data comercial" - como dizem os chatos - tentem oferecer às mães de vocês um pouco mais.  Se ofereçam a elas, abandonando os egoísmos que existem mesmo nas mínimas coisas (na comida do almoço, no programa de domingo, no filme da televisão). Isso, com certeza vale mais que qualquer palavra.

Talvez não seja suficiente, mas ainda assim será muito.

É que no dizer de mainha*, e esta é uma verdade, "nós só aprendemos a ser filhos, depois que somos pais.". Para aprender a ser filho, é necessário aprender a arte da renúncia. E as mães merecem toda tentativa.





¹ Apesar de falar sempre em "mãe", obviamente também me refiro aos pais que são mães.
² Soraia, vulgo Maria Soraide, me deve uma lasanha de camarão até hoje! Bel, vou cobrar!
³ Morena nos deixou fisicamente em 26 de abril deste ano. Mas só fisicamente. A memória não morre.

*Mãe, te amo muito! Sei que não é suficiente nada do que eu já fiz ou venha a fazer, perto do que você já fez e faz por mim. Só queria que você soubesse que eu tenho muito orgulho de ser sua filha e de ter aprendido tudo o que aprendi com você! Estaremos sempre juntas!












domingo, 9 de março de 2014

O Dia da Mulher e a barriga.

Não tinha escrito nada sobre o Dia da Mulher. Depois do carnaval, todavia, tive vontade de escrever sobre um determinado assunto e vi que dá pra relacionar ambos. O assunto é "Barrigas".

Durante o carnaval, Ivete Sangalo foi perguntada - mais vezes do que o recomendável - se estava grávida, devido a uma saliência localizada em seu tronco, também conhecida como "barriga". Durante sua passagem pelo circuito do carnaval, apresentadores de televisão encheram a cantora de perguntas sobre uma possível gravidez. E a resposta da artista surpreendeu muita gente: "É uma barriga de mulher que tem barriga mesmo.".

Difícil encontrar uma mulher que esteja satisfeita com essa parte da anatomia. Eu, particularmente, há um certo tempo, empreendi uma dieta de um dia com o objetivo de perder a pretensa barriga. Quase todas nós nos olhamos no espelho das academias, dos provadores de loja e, frustradas, vemos a barriguinha aparecendo. Ou "pneuzinhos". A gente come fruta, bebe mais água, usa faixas apertadíssimas e tenta fazer abdominais para tentar diminuir a barriga de todo jeito.

Por vezes não tem qualquer relação com a saúde. Quem pensa em ficar sem barriga apenas porque é saudável? Aliás, quem disse que o saudável é não ter barriga nenhuma, apenas uma pele que recobre os músculos do abdômen?

A relação entre barriga - ou a falta dela - e e beleza é tão forte que os publicitários já perceberam o quanto tem de apelar para a vaidade feminina. Ir ao banheiro com regularidade é bom para a saúde, certo? Mas você só vai tomar Activia até dizer chega se o inchaço causado pela prisão de ventre te deixar com uma barriga incômoda. O raciocínio é exatamente este.

Vivemos num mundo em que nossos ídolos, nossas atrizes favoritas ou cantoras possuem a barriga mínima. Experimente uma passeada por sites fúteis (que eu aprecio, devo admitir) e observe quantas mulheres possuem uma barriga minimamente saliente. Nenhuma delas. Até as que são mais gordinhas providenciam uma lipo, porque dá pra ter o braço, a coxa ou a perna grandes, mas barriga, jamais! E esse universo de pessoas sem barriga nos faz pensar de maneira absolutamente errada que o normal é não ter barriga. Até as manchetes ajudam nisso: em meio a dezenas e dezenas de notícias do tipo "Gracyanne Barbosa mostra barriga sarada na Sapucaí" surge um escândalo mais ou menos assim "Ivete Sangalo é vista com barriga saliente em Salvador".

Meu Deus! Ivete Sangalo tem barriga? Não, não pode ser! Ela só pode estar grávida! - a imprensa estúpida e subalterna de idiotices pensa e proclama por aí.

Talvez por isso a resposta dela tenha deixado os apresentadores tão desconfortáveis, ainda mais pelo jeito debochado da cantora, que num tom de brincadeira, mas visivelmente "retada", perguntou a Casemiro Neto se foi ele que "a comeu".

Apesar de a obesidade crescer assustadoramente no país, a preocupação com a "barriguinha" beira o absurdo. A busca pela saúde - e por uma alimentação saudável, atividades físicas regulares e mente descansada - deveria ser a causa que está por trás de toda barriga "sequinha", "chapada", "sarada" ou "negativa". A pretensa barriga musculosa deveria ser apenas a consequência de uma vida saudável e não o principal motivo de cirurgias plásticas e procedimentos tão invasivos quanto.

Enquanto pensamos que tudo não passa de vaidade, apenas, e utilizamos o pretexto da saúde, adolescentes vomitam o almoço porque tem o assustador medo de engordarem e não serem mais aceitas em seus círculos de amigos. Tudo porque acreditam que serão tratadas como as famosas: "Olha, Fulana tem barriga! Meu Deus! Que catástrofe!".

No Dia da Mulher as pessoas deveriam refletir sobre isso. Deveriam deixar que as mulheres tenham sua própria barriga e possam dizer que tem barriga mesmo, como Ivete fez. As mulheres deveriam ter o direito de exibirem suas "barrigas positivas" por aí, ainda que a positividade delas não seja causada por um bebê.

É por isso que eu mudei meu padrão de beleza. Em vez de Gracyanne Barbosa, Panicats e Top Models, eu agora vou me espelhar em Vênus de Milo, de Botticelli. Se você reparar bem, ela tem uma certa salienciazinha ali. Mas ela é uma deusa, assim como toda mulher.




quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Dos que não conseguem morrer: o amor e o sonho.

Este texto deveria estar impregnado de otimismo, cheirando a esperança e fé, e eu queria que ele tivesse o poder de penetrar os corações e de irradiar luz nas pupilas opacas dos que sofrem. Bastaria isso para que eu seguisse essa minha vida pretensamente feliz por entre os séculos, ainda que já não habitasse esse corpo.

Em "O Auto da Compadecida" o personagem Chicó costuma falar, mais de uma vez, que "Tudo que é vivo morre.". Ouso discordar do mestre Ariano Suassuna para dizer que só duas coisas essencialmente vivas jamais conseguem morrer: o amor e o sonho.

Mas tenho visto - com esses olhos que foram feitos para ver as belezas do mundo, e não sem assombro -, como a falta de amor tem levado a vida humana à mais horrível miserabilidade. Seguimos como um rebanho de condenados, ricos e pobres, a achar que vida é isso que nos é apresentado todos os dias.

Pobres de nós, na maioria das vezes mortos-vivos, a cumprir a rotina triste da falta de amor.

Recuso-me a acreditar - e achar normal - que pessoas foram feitas para serem desprezadas, machucadas, malcuidadas, humilhadas. De coração. E eu queria muito mesmo ter a coragem de agir, de fazer algo concreto, algo real para mudar a condição de vidas que se perdem todos os dias em virtude de nossas inércias cômodas.

Algumas pessoas acham que são melhores que outras em alguma coisa: na cor, no dinheiro que possuem no bolso (ou em contas bancárias no exterior), no nome, na profissão, no idioma, na religião. Coisas assim, frívolas.

Nos julgamos, na maior parte do tempo, detentores de todo o conhecimento, senhores das coisas da natureza e das ciências, poderosos em nossas poltronas e cadeiras de couro acomodadas sobre o carpete dos escritórios e gabinetes. Nos sentimos invencíveis e intocáveis. E fazemos tudo o que for preciso para manter essa vaidade do "ser melhor que alguém".

Como nunca percebemos que ser "melhor" só deveria possuir o sentido de ser uma pessoa essencialmente melhor? Ser melhor que alguém deveria significar ser mais caridoso, mais generoso, mais carinhoso e menos pedante, arrogante, intolerante...

Através desses milhares de anos de história humana conhecemos dois líderes bem distintos. Alcançaram multidões inestimáveis e reproduziram discursos que até hoje ecoam. A diferença entre eles era o fundamento de suas doutrinas: um pregava o amor ao próximo; o outro, pregava o ódio.

Para um, o amor era o cerne de toda a fé e de toda a salvação. Para outro, o amor era só essa palavra subversiva e boba repetida em dicionários judeus.

Por certo você, que está lendo isso, deve pensar que não existe comparação entre esses dois líderes e se questiona o porquê de ser apresentada uma balança tão desequilibrada. "Mas é claro que eu seguiria o primeiro", dirá. Então é chegada a hora de se perguntar por que só consegue reproduzir o segundo discurso, agindo conforme a falta de amor.

Não é necessário que você tenha religião, sequer que você acredite em Deus. Só é preciso que acredite no ser humano e não entenda essa "normalidade" das misérias cotidianas. Nos emocionamos tanto com filmes e documentários, sobretudo quando há crianças, e andamos pela rua ignorando esses olhinhos solitários que reclamam alimento. Somos incapazes, por vezes, de sorrir de volta, de ajudar quem precisa, de ser um pouco mais solidário do que somos conosco mesmos, com essa nossa imagem narcísica e suicida. E vamos morrendo sem amor, aos poucos. Às vezes aos montes, como no Oriente Médio.

Talvez por isso Cristo algum dia tenha dito que devemos amar o próximo como a nós mesmos. Nós nos perdoamos todos os dias, não importa quão ruins tenhamos sido. Nós cuidamos de nós mesmos. Expomos nossos sentimentos para nos sentirmos melhor. Temos calma com as besteiras que nós mesmos dizemos e pensamos. Nós jamais teríamos coragem de nos machucar ou nos fazer mal. E se alguma vez alguém já tentou não existir mais, não foi por falta de amor, mas foi por se amar demais a ponto de viver em estado de tamanho sofrimento.

Como é difícil tratar o próximo como tratamos a nós próprios. Mesmo as pessoas que mais amamos, ficam aquém de nossa malfadada soberba diária. Deus, como é difícil olhar para a rua e ver pessoas, quando estamos acostumados a olhar a rua e ver prazos, contas, números, deveres, vitrines, dinheiro, caixa eletrônico, carros, semáforos!

Talvez se amássemos mesmo desse jeito que alguém tentou ensinar, o mundo não seria assim e não estaria caminhando para pior. Parece uma conclusão óbvia, mas até tomar consciência dela dói um pouco enxergar. É como a pessoa que faz uma cirurgia no olho e tem de usar um tampão: a luz queima no início, até que as trevas se dissipem de todo.

Eu disse lá em cima que apenas duas coisas são vivas demais para conseguirem morrer: o amor e o sonho. Pois bem, eu sonho com o dia em que as pessoas se olhem com tanto amor que sorriam umas para as outras sem motivo algum. E que ao constatarem não ter motivo pra sorrir, que elas riam juntas pensando no quão são bobas se amando. E vão pro trabalho mais leves e definitivamente melhores. Eu sonho com o dia em que começaremos a nos preocupar de verdade com as pessoas que não tem ninguém por elas: as crianças, os idosos, aqueles mais frágeis, mais relegados a um segundo plano distante de nossos castelos de vidro, aqueles que, paradoxalmente, são menos miseráveis porque conseguem amar de verdade alguém. Sonho com o dia em que as diferenças entre homens e mulheres, ricos e pobres, pretos e brancos, patrões e operários sejam apenas as diferenças entre as impressões digitais.

Eu sonho com o dia em que o amor simples de umas pessoas pelas outras deixe de ser sonho.

Quem sabe começando agora já seja possível sentir a leve e perfumada brisa da esperança. Ela também não morre.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Mulher "pra frente".

Se tem uma coisa que eu tô pra escrever tem tempo é sobre a expressão "pra frente", dirigida a mulheres que pensam exatamente da maneira que eu penso.

Confesso que não gostava dessa expressão. Detestava quando alguém me conhecia e de cara fazia a clássica pergunta - não sem um tom de malícia na voz-: "Você é bem pra frente, né?". Na mesma hora eu virava a cara, enquanto pensava na quantidade de imbecis que o mundo ainda pode produzir.

Mas amadureci e comecei a perceber que, em vez de abandonar por completo uma realidade que não gosto, por vezes é mais divertido transformar essa mesma realidade. Por isso hoje ninguém precisa me atribuir essa característica de "pra frente". Eu mesma digo.

E percebi uma coisa ainda mais impressionante: alguns homens desperdiçam o poder da expressão "pra frente" fazendo crer - erroneamente - que pra frente é a mulher que se diverte: bebe, dança, seduz , beija e ama como uma louca. Os homens pensam que a mulher pra frente é aquele tipo de mulher que fala de sexo sem vergonha alguma, que fica com quantos quer ficar, que chama a atenção por falar alto. Alguns considerariam vulgar.


O que muitos não consideram é que há uma sensível diferença entre ser vulgar e ser feliz. Entre ser espontânea e agir especificamente para chamar a atenção de homens cujo cérebro não excede as dimensões de uma noz.

Por isso não sou pra frente apenas por me divertir numa festa e - creiam-me - já ouvi perguntas do tipo "Você tá se divertindo bastante né? Super pra frente você.". Imagina se eu começasse a ir em festas pra não me divertir? Ou se eu me preocupasse mais em manter a maquiagem no rosto do que o ritmo da dança? Coisas que não entram na minha cabeça.

Eu sou pra frente mesmo porque meus passos nunca foram do tamanho das minhas pernas.

Porque entre minhas piadas de duplo sentido e as gargalhadas de amigos queridos estão meus melhores momentos de alegria.

Sou pra frente porque não tenho vergonha das coisas que penso nem das coisas que faço, justamente porque meus desejos apenas se limitam pela minha consciência e não pela dos outros. E se as pessoas em geral não tem vergonha de se tratarem mal, não deviam se envergonhar de nada que as faz humanas.

Minhas vontades, enquanto não prejudicarem ninguém, são apenas minhas. São queridas. São o que fazem de mim uma pessoa verdadeiramente viva nesse mundo.

Talvez eu seja pra frente porque eu viva pra mim mesma.

Ou porque eu amo conversar com gente. Conhecer pessoas. Ouvir e falar muito. Brincar.

Entendo que não é fácil conhecer uma mulher verdadeiramente pra frente (e tenho a sorte de conhecer muitas delas, todas irresistíveis), por isso muita gente confunde as coisas. Algumas continuam vivendo dois mundos: um, lindo e colorido, cheio de possibilidades e coisas que gostaria de fazer; outro preto e branco e sem graça, no qual admite sobreviver às custas do que os outros acham legal e certo.

Ser pra frente não tem absolutamente nada a ver com ser inconsequente ou irresponsável. É apenas uma questão de se respeitar e de fazer aquilo que te dá mais vida, aquilo que faz o olho brilhar, aquilo que dá a absoluta certeza de que não se vem ao mundo apenas para enfeitar uma vitrine vazia.

Não é nada parecido com beijar mais de um cara numa festa nem fazer sexo na primeira noite - e é uma vergonha que ainda continuamos discutindo coisas assim em relação às mulheres, em pleno ano de 2014.

A mulher pra frente é aquela que faz sua própria vontade, ainda que isso custe um péssimo corte de cabelo ou um coração tão quebradiço quanto unhas grandes.

Mulher pra frente não tem tempo de se mostrar mais ou menos "adequada" - essa palavra me dá gastura - simplesmente porque está ocupada demais distribuindo simpatia sem medo de parecer oferecida ou amando corajosamente alguém. Inclusive, por fazerem apenas o que tem vontade, essas mulheres amam mais do que quaisquer outras que eventualmente apenas se preocupam com fotos bonitinhas no Instagram.


Sei que a companhia de uma mulher pra frente deve encher os homens de receios e inseguranças bobas. Mas pra quem gosta de alegria e verdade é fácil encontrar uma:

Lá na frente mesmo - ali onde as nuvens e a luz do sol criam arco-íris - lá é que estará a mulher pra frente correndo atrás de seus sonhos e te deixando pra trás. Aliás, se eu puder dar um conselho a meia dúzia de homens mais ou menos esclarecidos eu diria que jamais exija que uma mulher pra frente regrida até você. Seja um homem suficientemente pra frente para acompanhá-la.

Admito que no início fiquei até preocupada com o fato de parecer que estou "justificando" alguma coisa com esse texto. Depois eu vi que apenas queria escrevê-lo e, mulher pra frente que sou, não posso perder a oportunidade de fazer aquilo que me dá vontade.

Assim, antes de chamarem alguém de "pra frente", rapazes, certifiquem-se de que não estão desperdiçando  um elogio. Poucas mulheres, nesse mundo ridiculamente machista, conseguem ser espontaneamente irresistíveis. Valorizem. Ou prefiram as adequadas.

P.S. Outro dia uma colega de escola publicou no facebook "Vulgar sem ser sexy". Muito "pra frente" ela. Ou admirável. Dá no mesmo.

domingo, 24 de novembro de 2013

Rascunho definitivo.

Escrever deveria ser sempre esse caminhar no escuro da alma. Essa coisa assustadora que de repente se ilumina em alguma vereda do coração.
Escrever deveria aliviar a dor como um pensamento alegre. E não deveria haver pessimismo em escrever.
Se escreve, sobretudo, aquilo que se quer e, a não ser que o que se escreva seja uma carta suicida, nada pode ser escrito com tudo que há de ruim.
Nessas horas em que sem inspiração me desespero, em que penso sobre todas as coisas já escritas e busco um novo velho significado. Nessas horas é que deixo as palavras lançarem-se em tempestade sobre o papel branco, me propondo um rascunho que não pode ser consertado. Nessas horas é que deixo as palavras cumprirem sua sinas. Mostrarem-me porque vieram.
Talvez para acalmar as ânsias desse coração que tem sede. Talvez para afugentar todos os medos e me transformarem de dentro pra fora toda e de uma só vez. Talvez porque liberdade seja isso e as palavras precisam enfrentar a mesma desordem que meus cabelos sentem ao cair sobre o papel, formando uma senda através da qual vejo todo o resto.
Agora é que, engraçado, me vejo como um objeto pelo qual as palavras passam sem embaraço; algumas se rindo de mim, outras me provocando.
Percebo que acabo de escrever uma palavra em letra cursiva muito feia e que já nem sei o que era nem o que eu mesma queria dizer.
Não me importa: basta apenas seguir o fluxo do branco no papel, onde já se formam sombras do que foi escrito no verso.
Importante esta missão de poder escrever sem pensar, tão diferente do dia a dia em que sequer nos permitimos amar sem pensar - logo amar, que apaga qualquer vestígio de raciocínio.
Pois continuo escrevendo em assombrosa velocidade, deixando que gritem as palavras a liberdade que não encontraram em mim. Elas, que até então estavam enclausuradas nesse peito. Voem! Cantem! Assustem!
Nenhuma delas é minha, em verdade sinto como se tivesse acabado de psicografá-las: uma luz misteriosa sobre minha cabeça ilumina o que se escondia na alma. A cabeça pende e o corpo dança, estático apenas por fora. Talvez o corpo é que não esteja tão acostumado a deixar fluir e por isso o estranhamento. Mas o coração está.

Foi ele que escreveu agora.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Os deuses do Olimpo e a maior de todas as virtudes.

"Dizem que os deuses, tendo se reunido no Olimpo para tratar dos assuntos celestiais, começaram a se perguntar sobre as virtudes mais cultuadas entre os humanos. Cada um dos deuses falou das virtudes que tinham seus protegidos, ressaltando suas qualidades e o quanto eram cheios de fé. E começaram a discordar uns dos outros, afirmando que a melhor das virtudes encontrava-se neste ou naquele homem. Instalou-se uma pequena confusão e Júpiter fora chamado a resolver o impasse.

Júpiter encontrava-se em uma posição difícil. Como decidir qual das virtudes era melhor, se cada humano possuía em si inúmeras qualidades e cada deus elegia seu protegido como o mais virtuoso?

Certo de que a solução imediata poderia desagradar aos demais, ordenou Júpiter que se realizasse um torneio. Aquele que lhe apresentasse a maior das virtudes ganharia a imortalidade. No entanto, os que fracassassem estariam condenados ao reino dos mortos. Com esta medida, esperava Júpiter que os deuses desistissem de expor a perigo seus humanos mais queridos, abandonando a disputa e restabelecendo a harmonia agora abalada no Olimpo.

Não foi o que aconteceu, todavia. Confiantes no julgamento justo que presenciariam e nas virtudes dos homens, os deuses mantiveram a ideia de se realizar o grande concurso.

No dia do torneio os ventos eram todos favoráveis. Netuno amainou as águas, a fim de que nada perturbasse a tranquilidade dos deuses e dos humanos postos a prova. E eram muitos. De toda a Grécia vinham jovens e velhos, homens e mulheres, ricos e pobres, certos de possuírem a maior de todas as virtudes.

Uma jovem muito bela apresentou-se. De fato a beleza ressaltava aos olhos e parecia que em toda a terra, e mesmo no céu, ofuscava aos demais. Os deuses ficaram maravilhados e Afrodite, com ar triunfante, pensou ter vencido o torneio sua protegida. Mas Júpiter atalhou dizendo que não se convencia de que a maior das virtudes fosse algo tão efêmero. Ordenou que mais pessoas viessem.

Um deles apresentou-lhe a virtude da sabedoria. Outro, da paciência. Outro, da bondade. E assim sucessivamente. Coragem, inteligência, alegria foram despejados aos pés dos deuses. Mas Júpiter ainda não tinha sua escolha. Restavam agora uns poucos humanos. E nenhum fez o deus dos deuses aceder a seu favor.

Certo de que seria impossível escolher uma só, entre todas aquelas virtudes, Júpiter já se preparava para admitir o final de um torneio em que não haveria vencedor.

Até que um último candidato surgiu por entre a folhagem. Carregava nos braços o corpo inanimado de uma mulher. Nos olhos, lágrimas muito numerosas brotavam, deixando um rastro úmido pelo caminho percorrido. Tinha um aspecto sofrido, mas firme. Parecia irresignado e corajoso ao mesmo tempo. O próprio Júpiter indagou:

- Que virtude me apresenta, humano?

- Sou o único filho desta mulher, que agora pertence ao reino dos mortos. Não venho em meu nome buscar qualquer glória ou reconhecimento por algo que tenha feito. Não me acho digno. Jamais me sobressaí entre os outros pela existência de qualquer virtude em mim. Não sou belo. Não me considero o mais inteligente e corajoso dos homens, tampouco possuo a meu favor a alegria perene. Sou apenas um filho e nesta condição é que me dirijo a vós.
O nome desta mulher é Agape e creio que se já não encontrou a maior das virtudes, que tanto procura, ó Júpiter, entrego-lhe a única criatura em que se reúnem todas. Desde que vim ao mundo esta mulher fez de tudo para que eu pudesse viver bem, abdicando, por vezes, da sua própria vida. Quando os ventos do norte anunciavam o inverno e toda a terra se encontrava gelada e hostil, esta mulher tirou as próprias vestes para que eu pudesse ficar aquecido. Quando sobreveio a peste, ela não tardou em fugir comigo e passar por mil perigos nas estradas, até que nos estabelecêssemos em um lugar seguro. Trabalhou com afinco por toda a vida para prover meu sustento e se alguma vez o alimento faltou somente ela experimentou a fome, vez que me ofertava tudo aquilo que conseguia para si.
Hoje, após tanto tempo de sacrifício, Plutão levou-a para o reino dos mortos e já me vejo sem a coragem que via todos os dias em seus olhos. Apesar de homem feito, sei que dependo de seus ensinamentos e sua sabedoria e por isso mesmo venho pleitear para ela a imortalidade, pois em lugar algum do mundo acharão pessoa mais virtuosa. Peço, para ela, a imortalidade, justamente pelo fato de que fui eu que lhe tirei a vida aos poucos.

Por um instante todos os sons do céu e da terra cessaram. Todos os homens e todos os deuses olhavam assustados uns para os outros e para dentro de si mesmos. Depois, uma a uma, as faces voltaram-se a Júpiter, em busca de respostas para o pedido que de maneira  tão especial lhe fora feito.

Júpiter não conseguiu dizer mais nada exceto:

- Rapaz, você veio até nós sem o desejo do reconhecimento e sem o ego que é peculiar a todos os humanos. Trouxe, em seus ombros, mais que o peso de um corpo: trouxe o peso da morte, a desalentar-lhe o coração e abater-lhe a face. Neste dia presenciamos virtudes magníficas serem despejadas diante de nossos olhos, cada uma parecendo melhor que a outra. Contudo, nenhuma das virtudes se afigurou tão boa que nos fizesse esquecer das outras. A beleza, a generosidade, a paciência, a paz, a coragem...Cada uma delas parecia soberana, por si só. Todavia, o motivo que o traz ao Olimpo hoje nos faz crer na existência da virtude suprema, aquela que a tudo suplanta, tudo suporta, e que dignifica todas as demais. Essa virtude é o amor. Somente o amor permite a abnegação da própria vida e por isso mesmo somente ele pode vencer a morte.

Dito isto, Júpiter ordenou à Plutão que trouxesse Ágape de volta à vida para conceder-lhe a imortalidade na forma de uma estrela, que do alto dos céus poderia continuar seguindo os passos de seu filho e guiando-lhe quando este se visse perdido."


E desde então, atravessando os séculos, a palavra "ágape" é utilizada para simbolizar a existência do amor incondicional, quase divino, capaz de grandes feitos e dos maiores sacrifícios. Imortal.