Este texto deveria estar impregnado de otimismo, cheirando a esperança e fé, e eu queria que ele tivesse o poder de penetrar os corações e de irradiar luz nas pupilas opacas dos que sofrem. Bastaria isso para que eu seguisse essa minha vida pretensamente feliz por entre os séculos, ainda que já não habitasse esse corpo.
Em "O Auto da Compadecida" o personagem Chicó costuma falar, mais de uma vez, que "Tudo que é vivo morre.". Ouso discordar do mestre Ariano Suassuna para dizer que só duas coisas essencialmente vivas jamais conseguem morrer: o amor e o sonho.
Mas tenho visto - com esses olhos que foram feitos para ver as belezas do mundo, e não sem assombro -, como a falta de amor tem levado a vida humana à mais horrível miserabilidade. Seguimos como um rebanho de condenados, ricos e pobres, a achar que vida é isso que nos é apresentado todos os dias.
Pobres de nós, na maioria das vezes mortos-vivos, a cumprir a rotina triste da falta de amor.
Recuso-me a acreditar - e achar normal - que pessoas foram feitas para serem desprezadas, machucadas, malcuidadas, humilhadas. De coração. E eu queria muito mesmo ter a coragem de agir, de fazer algo concreto, algo real para mudar a condição de vidas que se perdem todos os dias em virtude de nossas inércias cômodas.
Algumas pessoas acham que são melhores que outras em alguma coisa: na cor, no dinheiro que possuem no bolso (ou em contas bancárias no exterior), no nome, na profissão, no idioma, na religião. Coisas assim, frívolas.
Nos julgamos, na maior parte do tempo, detentores de todo o conhecimento, senhores das coisas da natureza e das ciências, poderosos em nossas poltronas e cadeiras de couro acomodadas sobre o carpete dos escritórios e gabinetes. Nos sentimos invencíveis e intocáveis. E fazemos tudo o que for preciso para manter essa vaidade do "ser melhor que alguém".
Como nunca percebemos que ser "melhor" só deveria possuir o sentido de ser uma pessoa essencialmente melhor? Ser melhor que alguém deveria significar ser mais caridoso, mais generoso, mais carinhoso e menos pedante, arrogante, intolerante...
Através desses milhares de anos de história humana conhecemos dois líderes bem distintos. Alcançaram multidões inestimáveis e reproduziram discursos que até hoje ecoam. A diferença entre eles era o fundamento de suas doutrinas: um pregava o amor ao próximo; o outro, pregava o ódio.
Para um, o amor era o cerne de toda a fé e de toda a salvação. Para outro, o amor era só essa palavra subversiva e boba repetida em dicionários judeus.
Por certo você, que está lendo isso, deve pensar que não existe comparação entre esses dois líderes e se questiona o porquê de ser apresentada uma balança tão desequilibrada. "Mas é claro que eu seguiria o primeiro", dirá. Então é chegada a hora de se perguntar por que só consegue reproduzir o segundo discurso, agindo conforme a falta de amor.
Não é necessário que você tenha religião, sequer que você acredite em Deus. Só é preciso que acredite no ser humano e não entenda essa "normalidade" das misérias cotidianas. Nos emocionamos tanto com filmes e documentários, sobretudo quando há crianças, e andamos pela rua ignorando esses olhinhos solitários que reclamam alimento. Somos incapazes, por vezes, de sorrir de volta, de ajudar quem precisa, de ser um pouco mais solidário do que somos conosco mesmos, com essa nossa imagem narcísica e suicida. E vamos morrendo sem amor, aos poucos. Às vezes aos montes, como no Oriente Médio.
Talvez por isso Cristo algum dia tenha dito que devemos amar o próximo como a nós mesmos. Nós nos perdoamos todos os dias, não importa quão ruins tenhamos sido. Nós cuidamos de nós mesmos. Expomos nossos sentimentos para nos sentirmos melhor. Temos calma com as besteiras que nós mesmos dizemos e pensamos. Nós jamais teríamos coragem de nos machucar ou nos fazer mal. E se alguma vez alguém já tentou não existir mais, não foi por falta de amor, mas foi por se amar demais a ponto de viver em estado de tamanho sofrimento.
Como é difícil tratar o próximo como tratamos a nós próprios. Mesmo as pessoas que mais amamos, ficam aquém de nossa malfadada soberba diária. Deus, como é difícil olhar para a rua e ver pessoas, quando estamos acostumados a olhar a rua e ver prazos, contas, números, deveres, vitrines, dinheiro, caixa eletrônico, carros, semáforos!
Talvez se amássemos mesmo desse jeito que alguém tentou ensinar, o mundo não seria assim e não estaria caminhando para pior. Parece uma conclusão óbvia, mas até tomar consciência dela dói um pouco enxergar. É como a pessoa que faz uma cirurgia no olho e tem de usar um tampão: a luz queima no início, até que as trevas se dissipem de todo.
Eu disse lá em cima que apenas duas coisas são vivas demais para conseguirem morrer: o amor e o sonho. Pois bem, eu sonho com o dia em que as pessoas se olhem com tanto amor que sorriam umas para as outras sem motivo algum. E que ao constatarem não ter motivo pra sorrir, que elas riam juntas pensando no quão são bobas se amando. E vão pro trabalho mais leves e definitivamente melhores. Eu sonho com o dia em que começaremos a nos preocupar de verdade com as pessoas que não tem ninguém por elas: as crianças, os idosos, aqueles mais frágeis, mais relegados a um segundo plano distante de nossos castelos de vidro, aqueles que, paradoxalmente, são menos miseráveis porque conseguem amar de verdade alguém. Sonho com o dia em que as diferenças entre homens e mulheres, ricos e pobres, pretos e brancos, patrões e operários sejam apenas as diferenças entre as impressões digitais.
Eu sonho com o dia em que o amor simples de umas pessoas pelas outras deixe de ser sonho.
Quem sabe começando agora já seja possível sentir a leve e perfumada brisa da esperança. Ela também não morre.
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
sábado, 4 de janeiro de 2014
Mulher "pra frente".
Se tem uma coisa que eu tô pra escrever tem tempo é sobre a expressão "pra frente", dirigida a mulheres que pensam exatamente da maneira que eu penso.
Confesso que não gostava dessa expressão. Detestava quando alguém me conhecia e de cara fazia a clássica pergunta - não sem um tom de malícia na voz-: "Você é bem pra frente, né?". Na mesma hora eu virava a cara, enquanto pensava na quantidade de imbecis que o mundo ainda pode produzir.
Mas amadureci e comecei a perceber que, em vez de abandonar por completo uma realidade que não gosto, por vezes é mais divertido transformar essa mesma realidade. Por isso hoje ninguém precisa me atribuir essa característica de "pra frente". Eu mesma digo.
E percebi uma coisa ainda mais impressionante: alguns homens desperdiçam o poder da expressão "pra frente" fazendo crer - erroneamente - que pra frente é a mulher que se diverte: bebe, dança, seduz , beija e ama como uma louca. Os homens pensam que a mulher pra frente é aquele tipo de mulher que fala de sexo sem vergonha alguma, que fica com quantos quer ficar, que chama a atenção por falar alto. Alguns considerariam vulgar.
O que muitos não consideram é que há uma sensível diferença entre ser vulgar e ser feliz. Entre ser espontânea e agir especificamente para chamar a atenção de homens cujo cérebro não excede as dimensões de uma noz.
Por isso não sou pra frente apenas por me divertir numa festa e - creiam-me - já ouvi perguntas do tipo "Você tá se divertindo bastante né? Super pra frente você.". Imagina se eu começasse a ir em festas pra não me divertir? Ou se eu me preocupasse mais em manter a maquiagem no rosto do que o ritmo da dança? Coisas que não entram na minha cabeça.
Eu sou pra frente mesmo porque meus passos nunca foram do tamanho das minhas pernas.
Porque entre minhas piadas de duplo sentido e as gargalhadas de amigos queridos estão meus melhores momentos de alegria.
Sou pra frente porque não tenho vergonha das coisas que penso nem das coisas que faço, justamente porque meus desejos apenas se limitam pela minha consciência e não pela dos outros. E se as pessoas em geral não tem vergonha de se tratarem mal, não deviam se envergonhar de nada que as faz humanas.
Minhas vontades, enquanto não prejudicarem ninguém, são apenas minhas. São queridas. São o que fazem de mim uma pessoa verdadeiramente viva nesse mundo.
Talvez eu seja pra frente porque eu viva pra mim mesma.
Ou porque eu amo conversar com gente. Conhecer pessoas. Ouvir e falar muito. Brincar.
Entendo que não é fácil conhecer uma mulher verdadeiramente pra frente (e tenho a sorte de conhecer muitas delas, todas irresistíveis), por isso muita gente confunde as coisas. Algumas continuam vivendo dois mundos: um, lindo e colorido, cheio de possibilidades e coisas que gostaria de fazer; outro preto e branco e sem graça, no qual admite sobreviver às custas do que os outros acham legal e certo.
Ser pra frente não tem absolutamente nada a ver com ser inconsequente ou irresponsável. É apenas uma questão de se respeitar e de fazer aquilo que te dá mais vida, aquilo que faz o olho brilhar, aquilo que dá a absoluta certeza de que não se vem ao mundo apenas para enfeitar uma vitrine vazia.
Não é nada parecido com beijar mais de um cara numa festa nem fazer sexo na primeira noite - e é uma vergonha que ainda continuamos discutindo coisas assim em relação às mulheres, em pleno ano de 2014.
A mulher pra frente é aquela que faz sua própria vontade, ainda que isso custe um péssimo corte de cabelo ou um coração tão quebradiço quanto unhas grandes.
Mulher pra frente não tem tempo de se mostrar mais ou menos "adequada" - essa palavra me dá gastura - simplesmente porque está ocupada demais distribuindo simpatia sem medo de parecer oferecida ou amando corajosamente alguém. Inclusive, por fazerem apenas o que tem vontade, essas mulheres amam mais do que quaisquer outras que eventualmente apenas se preocupam com fotos bonitinhas no Instagram.
Sei que a companhia de uma mulher pra frente deve encher os homens de receios e inseguranças bobas. Mas pra quem gosta de alegria e verdade é fácil encontrar uma:
Lá na frente mesmo - ali onde as nuvens e a luz do sol criam arco-íris - lá é que estará a mulher pra frente correndo atrás de seus sonhos e te deixando pra trás. Aliás, se eu puder dar um conselho a meia dúzia de homens mais ou menos esclarecidos eu diria que jamais exija que uma mulher pra frente regrida até você. Seja um homem suficientemente pra frente para acompanhá-la.
Admito que no início fiquei até preocupada com o fato de parecer que estou "justificando" alguma coisa com esse texto. Depois eu vi que apenas queria escrevê-lo e, mulher pra frente que sou, não posso perder a oportunidade de fazer aquilo que me dá vontade.
Assim, antes de chamarem alguém de "pra frente", rapazes, certifiquem-se de que não estão desperdiçando um elogio. Poucas mulheres, nesse mundo ridiculamente machista, conseguem ser espontaneamente irresistíveis. Valorizem. Ou prefiram as adequadas.
P.S. Outro dia uma colega de escola publicou no facebook "Vulgar sem ser sexy". Muito "pra frente" ela. Ou admirável. Dá no mesmo.
domingo, 24 de novembro de 2013
Rascunho definitivo.
Escrever deveria ser sempre esse caminhar no escuro da alma. Essa coisa assustadora que de repente se ilumina em alguma vereda do coração.
Escrever deveria aliviar a dor como um pensamento alegre. E não deveria haver pessimismo em escrever.
Se escreve, sobretudo, aquilo que se quer e, a não ser que o que se escreva seja uma carta suicida, nada pode ser escrito com tudo que há de ruim.
Nessas horas em que sem inspiração me desespero, em que penso sobre todas as coisas já escritas e busco um novo velho significado. Nessas horas é que deixo as palavras lançarem-se em tempestade sobre o papel branco, me propondo um rascunho que não pode ser consertado. Nessas horas é que deixo as palavras cumprirem sua sinas. Mostrarem-me porque vieram.
Talvez para acalmar as ânsias desse coração que tem sede. Talvez para afugentar todos os medos e me transformarem de dentro pra fora toda e de uma só vez. Talvez porque liberdade seja isso e as palavras precisam enfrentar a mesma desordem que meus cabelos sentem ao cair sobre o papel, formando uma senda através da qual vejo todo o resto.
Agora é que, engraçado, me vejo como um objeto pelo qual as palavras passam sem embaraço; algumas se rindo de mim, outras me provocando.
Percebo que acabo de escrever uma palavra em letra cursiva muito feia e que já nem sei o que era nem o que eu mesma queria dizer.
Não me importa: basta apenas seguir o fluxo do branco no papel, onde já se formam sombras do que foi escrito no verso.
Importante esta missão de poder escrever sem pensar, tão diferente do dia a dia em que sequer nos permitimos amar sem pensar - logo amar, que apaga qualquer vestígio de raciocínio.
Pois continuo escrevendo em assombrosa velocidade, deixando que gritem as palavras a liberdade que não encontraram em mim. Elas, que até então estavam enclausuradas nesse peito. Voem! Cantem! Assustem!
Nenhuma delas é minha, em verdade sinto como se tivesse acabado de psicografá-las: uma luz misteriosa sobre minha cabeça ilumina o que se escondia na alma. A cabeça pende e o corpo dança, estático apenas por fora. Talvez o corpo é que não esteja tão acostumado a deixar fluir e por isso o estranhamento. Mas o coração está.
Foi ele que escreveu agora.
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
Os deuses do Olimpo e a maior de todas as virtudes.
"Dizem que os deuses, tendo se reunido no Olimpo para tratar dos assuntos celestiais, começaram a se perguntar sobre as virtudes mais cultuadas entre os humanos. Cada um dos deuses falou das virtudes que tinham seus protegidos, ressaltando suas qualidades e o quanto eram cheios de fé. E começaram a discordar uns dos outros, afirmando que a melhor das virtudes encontrava-se neste ou naquele homem. Instalou-se uma pequena confusão e Júpiter fora chamado a resolver o impasse.
Júpiter encontrava-se em uma posição difícil. Como decidir qual das virtudes era melhor, se cada humano possuía em si inúmeras qualidades e cada deus elegia seu protegido como o mais virtuoso?
Certo de que a solução imediata poderia desagradar aos demais, ordenou Júpiter que se realizasse um torneio. Aquele que lhe apresentasse a maior das virtudes ganharia a imortalidade. No entanto, os que fracassassem estariam condenados ao reino dos mortos. Com esta medida, esperava Júpiter que os deuses desistissem de expor a perigo seus humanos mais queridos, abandonando a disputa e restabelecendo a harmonia agora abalada no Olimpo.
Não foi o que aconteceu, todavia. Confiantes no julgamento justo que presenciariam e nas virtudes dos homens, os deuses mantiveram a ideia de se realizar o grande concurso.
No dia do torneio os ventos eram todos favoráveis. Netuno amainou as águas, a fim de que nada perturbasse a tranquilidade dos deuses e dos humanos postos a prova. E eram muitos. De toda a Grécia vinham jovens e velhos, homens e mulheres, ricos e pobres, certos de possuírem a maior de todas as virtudes.
Uma jovem muito bela apresentou-se. De fato a beleza ressaltava aos olhos e parecia que em toda a terra, e mesmo no céu, ofuscava aos demais. Os deuses ficaram maravilhados e Afrodite, com ar triunfante, pensou ter vencido o torneio sua protegida. Mas Júpiter atalhou dizendo que não se convencia de que a maior das virtudes fosse algo tão efêmero. Ordenou que mais pessoas viessem.
Um deles apresentou-lhe a virtude da sabedoria. Outro, da paciência. Outro, da bondade. E assim sucessivamente. Coragem, inteligência, alegria foram despejados aos pés dos deuses. Mas Júpiter ainda não tinha sua escolha. Restavam agora uns poucos humanos. E nenhum fez o deus dos deuses aceder a seu favor.
Certo de que seria impossível escolher uma só, entre todas aquelas virtudes, Júpiter já se preparava para admitir o final de um torneio em que não haveria vencedor.
Até que um último candidato surgiu por entre a folhagem. Carregava nos braços o corpo inanimado de uma mulher. Nos olhos, lágrimas muito numerosas brotavam, deixando um rastro úmido pelo caminho percorrido. Tinha um aspecto sofrido, mas firme. Parecia irresignado e corajoso ao mesmo tempo. O próprio Júpiter indagou:
- Que virtude me apresenta, humano?
- Que virtude me apresenta, humano?
- Sou o único filho desta mulher, que agora pertence ao reino dos mortos. Não venho em meu nome buscar qualquer glória ou reconhecimento por algo que tenha feito. Não me acho digno. Jamais me sobressaí entre os outros pela existência de qualquer virtude em mim. Não sou belo. Não me considero o mais inteligente e corajoso dos homens, tampouco possuo a meu favor a alegria perene. Sou apenas um filho e nesta condição é que me dirijo a vós.
O nome desta mulher é Agape e creio que se já não encontrou a maior das virtudes, que tanto procura, ó Júpiter, entrego-lhe a única criatura em que se reúnem todas. Desde que vim ao mundo esta mulher fez de tudo para que eu pudesse viver bem, abdicando, por vezes, da sua própria vida. Quando os ventos do norte anunciavam o inverno e toda a terra se encontrava gelada e hostil, esta mulher tirou as próprias vestes para que eu pudesse ficar aquecido. Quando sobreveio a peste, ela não tardou em fugir comigo e passar por mil perigos nas estradas, até que nos estabelecêssemos em um lugar seguro. Trabalhou com afinco por toda a vida para prover meu sustento e se alguma vez o alimento faltou somente ela experimentou a fome, vez que me ofertava tudo aquilo que conseguia para si.
Hoje, após tanto tempo de sacrifício, Plutão levou-a para o reino dos mortos e já me vejo sem a coragem que via todos os dias em seus olhos. Apesar de homem feito, sei que dependo de seus ensinamentos e sua sabedoria e por isso mesmo venho pleitear para ela a imortalidade, pois em lugar algum do mundo acharão pessoa mais virtuosa. Peço, para ela, a imortalidade, justamente pelo fato de que fui eu que lhe tirei a vida aos poucos.
Por um instante todos os sons do céu e da terra cessaram. Todos os homens e todos os deuses olhavam assustados uns para os outros e para dentro de si mesmos. Depois, uma a uma, as faces voltaram-se a Júpiter, em busca de respostas para o pedido que de maneira tão especial lhe fora feito.
Júpiter não conseguiu dizer mais nada exceto:
- Rapaz, você veio até nós sem o desejo do reconhecimento e sem o ego que é peculiar a todos os humanos. Trouxe, em seus ombros, mais que o peso de um corpo: trouxe o peso da morte, a desalentar-lhe o coração e abater-lhe a face. Neste dia presenciamos virtudes magníficas serem despejadas diante de nossos olhos, cada uma parecendo melhor que a outra. Contudo, nenhuma das virtudes se afigurou tão boa que nos fizesse esquecer das outras. A beleza, a generosidade, a paciência, a paz, a coragem...Cada uma delas parecia soberana, por si só. Todavia, o motivo que o traz ao Olimpo hoje nos faz crer na existência da virtude suprema, aquela que a tudo suplanta, tudo suporta, e que dignifica todas as demais. Essa virtude é o amor. Somente o amor permite a abnegação da própria vida e por isso mesmo somente ele pode vencer a morte.
Dito isto, Júpiter ordenou à Plutão que trouxesse Ágape de volta à vida para conceder-lhe a imortalidade na forma de uma estrela, que do alto dos céus poderia continuar seguindo os passos de seu filho e guiando-lhe quando este se visse perdido."
E desde então, atravessando os séculos, a palavra "ágape" é utilizada para simbolizar a existência do amor incondicional, quase divino, capaz de grandes feitos e dos maiores sacrifícios. Imortal.
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
O abominável corredor da Le Biscuit.
Não sei se foi por natureza mesmo ou apenas por vontade de ser diferente, mas o fato é que eu sempre detestei bonecas. Quando pequena, gostava mesmo era de jogos, quebra-cabeças, pingue-pongue, livros e, claro, o futebol - que é minha atividade favorita até hoje. Boneca não. Boneca eu detestava e jogava fora. Principalmente aquelas tipo "bebês". Nunca me agradou a ideia de "brincar" de cuidar de um bebezinho.
Para não dizer que não falei das flores, tinha boneca tipo Barbie, uma só, e que eu usava mais para fazer parte da turma de amiguinhas do que pra brincar mesmo. Nas brincadeiras delas, sempre meio chatas, eu nunca fui a esposa do Ken, que fica em casa cuidando dos filhos e esperando o marido chegar do trabalho. Eu sempre era a irmã dessa aí, a solteira que trabalhava e tinha um carro.
Na minha infância do interior fui sempre uma criança muito livre e se não gostava de boneca era porque andava muito ocupada subindo em árvore, jogando bola na rua ou brincando de esconde-esconde. Poucas pessoas entendiam essa minha predileção por atividades esportivas ou que mexiam com a mente, o que me rendeu algumas decepções. Natal de 1998: meu tio que chegara dos Estados Unidos, trouxe presente para mim e para meus irmãos. Eu ganhei uma boneca que fazia som de beijo. Eles ganharam nada mais nada menos que dois carrões de controle remoto e que era a coisa mais legal que eu já tinha visto!
Com o tempo eu fui vendo que a diferença entre meus irmãos e eu não era apenas nos presentes. No tratamento em casa por vezes eu tinha que ajudar minha mãe com as tarefas domésticas enquanto meus irmão brincavam e sempre que perguntava o porquê de só eu ter que ajudá-la meu pai dizia: - Porque você é mulher.
Ouvindo assim parece mais estarrecedor, mas à época, como eu nem tinha muito o que pensar, acabava ficando só com raiva mesmo. Hoje eu vejo que o assunto é um pouco mais profundo que isso.
Minha mãe, por exemplo, sempre trabalhou dentro e fora de casa. Era responsável por tudo, no tempo em que não tivemos empregada doméstica. Desde a arrumação de todos os quartos até perguntar se já tínhamos feito o dever de casa. E se apenas eu tinha de ajudar com algumas tarefas domésticas, hoje agradeço tanto pelo fato de ter aprendido a me virar quanto pelo fato de conviver com a pessoa sensacional que mainha é.
Depois de mais um tempo, no início da adolescência, tudo ficou mais claro - e ao mesmo tempo incompreensível:
"Mariana, venha me ajudar a fazer o almoço."
"Mariana, você não pode ir pra festa com seus irmãos. Seu irmão pode porque é homem. Você é menina."
"Mariana, sente direito."
"Mariana, se você continuar jogando bola vai ficar toda marcada, com as pernas feias."
"Mariana, você não pode namorar. Só depois dos 15 anos e olhe lá!"
E de tanto "Mariana isso", "Mariana aquilo" eu fui incorporando os ditames, as regras, o costume de nossa sociedade machista - mas que não pode ser chamada assim porque as pessoas insistem que não é. Talvez porque se limitam a justificar seus posicionamentos com a singela frase "Mas homens e mulheres SÃO diferentes!". Nisso concordo. São mesmo. Diferenças naturais, biológicas, fisiológicas. Mas diferença de intelecto e de caráter não. Isso é uma coisa só pra ambos os sexos.
Para quem acha que não é machista, proponho um teste simples.
Ande um pouco pelos corredores de brinquedos da Le Biscuit ou das Lojas Americanas na parte de " brinquedos de meninas", aquela parte em que tudo tem que ser necessariamente rosa. Isso. Ande por lá. Olhe os brinquedos.
Dia desses eu fui com minha mãe e minha infância toda voltou à tona. De um lado a outro do corredor uma infinidade de brinquedos que as empresas deveriam ter vergonha de vender: piazinhas de prato pra lavar, fogãozinho, jogo de panelinha, ferrinho de passar e muitos bebês.
A voz amedrontadora gritava no meu ouvido:
"Mariana, cuide do bebê!"
"Mariana, faça comidinha na panela!"
"Mariana, passe a roupa!"
"Mariana, lave os pratos!".
Claro que as crianças não tem culpa alguma em querer brinquedos desse tipo. Deve haver algo de divertido nessas atividades (o que até hoje eu tento descobrir) ou simplesmente devem se sentir melhores ao fazer uma coisa de adulto. Além disso, os brinquedos são representações da realidade do mundo dos adultos. Os super-heróis são adultos e também as princesas. Os carrinhos são representação dos pais. Mas o que sobra pras mães é a representação machista dos afazeres domésticos e suas filhas, coitadas, tem de aprender desde cedo o que devem fazer.
Hoje, no programa "Encontro com Fátima" o assunto era sobre mulheres em posição de liderança. E todas foram perguntadas sobre como era liderar homens, e além disso homens mais velhos.
Aí eu percebi que ninguém jamais perguntou a um homem como era liderar uma mulher. Para eles é "natural". Para nós não, embora sejamos maioria em diversas profissões.
E o corredor da Le Biscuit, que se limitava a alguns metros, vai mais além do que a gente pensa...
terça-feira, 17 de setembro de 2013
O velho e o horizonte.
O velho sentou-se à frente do mar, observando as ondas. Umas batiam nas rochas e por ali ficavam, gerando uma espuma branca que secava e depois surgia novamente. Outras, livres, apenas quebravam na areia, fazendo a água chegar até o dedão do pé do velho. Água gélida, apesar do tempo quente.
Ficou assim observando as ondas, com aquele tipo de olhar nostálgico e resignado que a maioria dos velhos possui. Depois, fitou o horizonte e pôs-se a pensar no que havia além daquela linha. "Mais água", respondeu à pergunta implícita. Contudo, não queria saber exatamente o que havia naquele horizonte; queria saber mesmo é o que haveria além do seu horizonte, além da linha de sua vida.
Quando pequeno, a ideia de morrer e ir embora deste mundo parecia aterradora. A morte significava o mais pleno exercício da solidão. Sem sua família, seus amigos, seu cachorro de estimação e suas bolinhas de gude nenhum lugar lhe apetecia. Além disso, estaria à disposição de um Deus católico furioso, implacável e de memória tão boa que jamais deixaria passar impune aquela tarde, antes da missa, em que conseguira beber todo o vinho da taça da eucaristia. Sofreria castigos eternos por ter usado o sangue de Cristo como substância entorpecente - e por ter gostado da sensação - e por isso vislumbrava a imagem de um inferno muito quente e de muito sofrimento, do qual Deus e o Diabo eram sócios. Aquele, o juiz. Este, apenas um executor de sentenças.
Num ato inconsciente, enche a mão de terra e deixa que a areia fina caia entre seus dedos, como uma ampulheta a medir o tempo. Misterioso esse prazer estranho da areia fina caindo. Enche a mão com mais areia. Aperta um pouco. E mais uma vez quase todos os minúsculos grãos de areia conseguem retornar sem embaraços ao todo de onde saíram.
Seria sua vida igual àquilo tudo. Seriam sua vida, todos os seus prazeres, seus aprendizados, seus amores, seus afetos e suas construções reduzidos à uma areia fina que agora percebe escapulir entre seus dedos, enquanto empreende uma força tamanha na tentativa de não deixá-los?
A maré começa a encher e a água, agora, toca as pernas do velho.
No lugar em que a água chegou ele pega um punhado de areia e fecha, com força, a mão. Observa, sem qualquer espanto, que a areia misturada com água vira um pequeno bolinho compacto, que não mais se esvai, rolando na palma da mão até que o sol seque a areia novamente.
Conclui que mais triste do que partir para o mistério do horizonte é ver a vida partir de si antes do advento da morte. Percebe, com igual obviedade, que há uma parcela de coisas que não se pode deixar escorrer pelas mãos e que, por isso mesmo, devem ser regadas sempre, todos os dias: nossos amores, nossas famílias, todas as formas de afeto, os sorrisos (para se tornarem perpétuos), os aprendizados de todo dia, as lições que deixamos aos outros, a saudade (que deve ser sempre alimentada antes que se alimente da gente).
Pensando e assim, e olhando os horizontes que aparecem nas lentes gastas dos óculos, parece nada temer. Ao contrário: sente que é próxima a hora de descobrir o mistério, de saber o que se passa do lado de lá (se é que o tal "lado de lá" existe). Não estaria mais só, pois tantas pessoas queridas já cruzaram o aquele horizonte. Quando jovem sempre imaginou qual sentimento moveu os primeiros habitantes desta terra ao verem caravelas se aproximando e ficando maiores no mar. Haveria monstros no seu horizonte? Ou a possibilidade de algo surpreendente? Tudo que se construiu aqui fica, ou só aquilo que foi verdadeiramente semeado? Há um abismo no horizonte? Ou somente há uma ponte?
Era as perguntas que agora fazia a si mesmo, mas nem tentou responder. Voltou a olhar as ondas. Ainda viver para vê-las era algo que também não precisava de resposta. Entre as duas coisas, preferiu a segunda. As ondas sempre continuam: pra elas não há horizonte algum.
sexta-feira, 23 de agosto de 2013
O que não é dito.
Pra quê falar alguma coisa,
Se entre nós pesa esse clima,
Esse silêncio das palavras,
De todas as palavras
Que não precisam ser ditas?
Pra eu dizer, enfim
Basta que te olhe.
Palavras e desejos saem inconscientemente dos meus olhos,
Saem junto com minha expiração
E se direcionam a você,
Como se você pudesse senti-las, ouvi-las
Só com teu olhar também.
Ao seu redor elas flutuam no ar,
e dançam,
cada uma com uma cor,
cada uma tentando te falar uma coisa
de tantas coisas que tenho guardado.
Eu queria, na verdade, era que uma delas,
imprudente e desavisada,
te alisasse
depois beliscasse teu braço
se preciso até te desse um tapa na cara.
E assim, quem sabe,
Você ouviria tudo,
Tudo aquilo que eu não preciso dizer.
Se entre nós pesa esse clima,
Esse silêncio das palavras,
De todas as palavras
Que não precisam ser ditas?
Pra eu dizer, enfim
Basta que te olhe.
Palavras e desejos saem inconscientemente dos meus olhos,
Saem junto com minha expiração
E se direcionam a você,
Como se você pudesse senti-las, ouvi-las
Só com teu olhar também.
Ao seu redor elas flutuam no ar,
e dançam,
cada uma com uma cor,
cada uma tentando te falar uma coisa
de tantas coisas que tenho guardado.
Eu queria, na verdade, era que uma delas,
imprudente e desavisada,
te alisasse
depois beliscasse teu braço
se preciso até te desse um tapa na cara.
E assim, quem sabe,
Você ouviria tudo,
Tudo aquilo que eu não preciso dizer.
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